Capitalismo de elites


“Vou lançar um livro com a Universidade de Oxford sobre como é o mecanismo da tomada de posições dos ativos, como se formam essas elites, como controlam o poder econômico, financiam as campanhas políticas, fazem lobby, dominam a publicidade, controlam os meios de comunicação e têm intelectuais que são favoráveis a essas idéias.” Andrés Solimano

 “Elites econômicas e a influência indevida na democracia”

                Seu último livro, publicado em novembro passado Capitalismo a La Chilena, Andrés Solimano, doutor em Economia por Massachussets Institute of Technology (MIT), é um chileno de 57 anos que na atualidade trabalha no Centro Internacional de Globalização e Desenvolvimento (CIGLOB)) em seu país. Foi diretor dos bancos Mundial e Interamericano de Desenvolvimento (BID), assim como presidente do comitê executivo da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (FLACSO). Na campanha presidencial chilena está apoiando de forma ativa o candidato progressista Marco Enríquez Ominami, que deseja converter-se na alternativa à direita governante e à ex-presidente do Estado socialista Michele Bachelet. Nos próximos meses publicará um novo livro com o apoio da Universidade de Oxford sobre as elites econômicas no mundo.

André Solimano diz que os tratados de globalização dão prioridade ao intercâmbio de produtos e não à migração de pessoas.   

Pegunta: -Quais os temas que está investigando?

Resposta: – Nos últimos tempos temos trabalhado mais sobre as elites econômicas. Observamos como vão se construindo estes grupos que detém muito poder econômico, ligados aos bancos e empresas, aos recursos naturais e que são a contrapartida para a redistribuição da receita.

Na América Latina o coeficiente Gini (da desigualdade) é 50. Nos países da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico que integram os países ricos, Chile e México) é 38. Os países escandinavos estão em 28. Fala-se muito disto, mas eu estou tratando de medi-lo e vou lançar um livro com a Universidade de Oxford sobre como é o mecanismo da tomada de posições dos ativos, como se formam essas elites, como controlam o poder econômico, financiam as campanhas políticas, fazem lobby, dominam a publicidade, controlam os meios de comunicação e têm intelectuais que são favoráveis a essas idéias.

P: – O livro é somente sobre o Chile?

R: – Cito mais sobre o Chile no Capitalismo a La Chilena, onde falo de um capitalismo dinâmico mas com formação de elites poderosas. O livro de Oxford generaliza sobre a formação de elites pelo neoliberalismo. É mais teórico, não é sobre um país em particular, me refiro à experiência de formação de elites na América Latina, na União Européia e nos EUA desde os anos 80. Passamos do capitalismo do desenvolvimento econômico ao capitalismo de elites. São analisadas as elites na relação com a classe média e trabalhadora. Quando o neoliberalismo concentra ativos numa elite, a classe média fica vulnerável e endividada e a trabalhadora mais abaixo ainda.

Andres_solimano_capitalismoala_chilena

P: – Quais as conseqüências positivas e negativas trouxe o capitalismo de elite para a América Latina?

R: – Tento de não dar conotação negativa ou positiva. Traz um problema a concentração da riqueza mas pode trazer dinamismo, criação de empresas e empregos. É um padrão de crescimento acompanhado de alta desigualdade, concentração de poder econômico e político numa elite. São elites em geral produtivas, mesmo as rentistas. Mas tem uma influência indevida na democracia, se a entendermos como uma pessoa, um voto. As elites fazem campanha, lobby, contratam conhecimento e acesso aos meios de comunicação, tendem a distorcer a democracia. Há uma democracia formal mas muito influenciada por uma pequena elite. O problema é a desigualdade e a democracia.

P: -Quais são as vantagens?

R:- Esta elite é capaz de mobilizar as elites do conhecimento, professores, gerentes, especialistas. Isto surge com a globalização, com mercados externos e internos mais competitivos. As elites mobilizam conhecimentos que elas não têm, mas contratam para tomar uma posição dominante nos mercados. Por concentrar tanto capital tem a capacidade de investir e por isso há certo crescimento econômico.

P: – Este fenômeno também se registra em outros países latino-americanos, além do Chile?

R: – O Chile foi muito radical nas privatizações de empresas, da Segurança Social, da saúde, Educação e outros serviços aos quais se deu ao setor privado maior capacidade de atuar. No Chile isso foi muito mais profundo. Na Argentina a educação é mais pública, como no Uruguai. No Brasil o sistema é misto. Como no Chile, o mesmo ocorre na Colômbia, Perú e México onde o Estado se retira. Entre os milionários da lista da Forbes encabeça (Carlos) slim e também muitos financistas do Brasil, Argentina, Chile. É um fenômeno não somente da América latina como também de países ex-comunistas, que privatizaram tudo o que era estatal com o socialismo, a energia e os recursos naturais. Assim nasceu a nova oligarquia russa que compra o futebol europeu e edifícios em Nova Iorque.  Da nomenclatura comunista passaram a oligarquia liberal. Também isso ocorre na Europa Central e na China. Na lista de Forbes 40% dos milionários vêm de países emergentes e ex-comunistas.

 Coordinador del Área Económica del comando presidencial de Marco Enríquez-Ominami, discorre sobre a questão das pensões no Chile

P: Já não existiam na  América latina,  as elites econômicas antes dos anos 80? Ou novas foram criadas?

R: -Há dois fenômenos. Havia uma elite que estava protegida na substituição de importações. Agora há uma elite mais de mercado, mais globalizada, de bancos, exportadores, é uma elite que existe porque hoje tem mais liberdade de ação, há um setor privado maior e um setor público menor. Há novas elites de gente jovem. São famílias que herdaram velhas estruturas, gente que foi às universidades. Também isto ocorre no nível global na China, Rússia, Índia. Nos EUA há uma elite do setor financeiro que é muito poderosa nas decisões de desregulamentação e na tomada de decisões políticas.

P: – Mas não é toda a América Latina que avança no setor privado. Tem havido reestatizações na Venezuela, Argentina, Bolívia e Equador.

R: – Por um lado a Venezuela, Bolívia, Equador, Nicarágua, Cuba mas depois há um eixo que oscila entre os bolivarianos e a social-democracia, como Argentina, Brasil e Uruguai. Mantém-se conexões entre estes dois eixos. E há um eixo conservador: Perú, Chile, Colômbia e México. Alguns países deram uma resposta ao neoliberalismo dos anos 90, mas dependem muito dos recursos naturais. Não estão na lógica privatizadora e sim mais na lógica nacional e popular. Então há três eixos: o neoliberal, o bolivariano e o do Atlântico.

Capitalismoalachilena_capa

P: – O que acontece com as elites econômicas no eixo bolivariano ou na Argentina?

R: – As elites econômicas seguem mas tem menos influência política. A política, às vezes, vai contra as elites, porém o Governo de (Hugo) Chávez (1999-2013) não foi um governo de expropriar as elites econômicas. Impôs limites mas não estatizou toda a economia, apenas uma parte. Mantém mídia e indústrias privadas. Os Governos da ALBA (Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América) exerceram um nacionalismo de recursos naturais. Evo Morales, Chávez, Rafael Correa fizeram com que estes recursos estivessem nas mãos do Estado. Na parte social foram mais ativos que seus antecessores.

P: – Agora o México quer fazer política contra os monopólios da telefonia e televisão…

R: – Mas a liberalização nas últimas duas décadas conduziu a uma maior concentração nos serviços de utilidade pública, que é onde é mais fácil que haja concentração, como na telefonia e televisão. Também no Chile ocorre isso. Aqui estão Time Warner e Luksic. Supõe-se que o capitalismo necessita muitos consumidores e muitos produtores mas as políticas de livre mercado favoreceram os monopólios e oligopólios. Agora surge a preocupação. O neoliberalismo se preocupou menos com a concentração do que o capitalismo clássico. Não deram tanta importância a isto a não ser que não houvesse tanto Estado e que houvesse mais mercado. No México e no Chile os meios de comunicação são muito conservadores e sua propriedade está nas mãos de conglomerados nacionais e internacionais. Há liberdade de imprensa mas não há diversidade de imprensa. Necessitamos de dinheiro para ter mídia e se não temos mídia, se violenta a democracia.

P: -Qual sua opinião da política contra a concentração de meios de comunicação que se desdobrará no México e que já se aplica na Argentina?

R: – No Chile há movimentos  de fora do sistema que criticam a concentração da mídia mas como os meios estão muito concentrados, não há lugar para a discussão. Há opiniões divididas: há os que dizem que é razoável o da Argentina e outros que temem o controle estatal de mídia, ainda que não o controle privado da mídia. Este há eleiçEoes presidenciais no Chile e acredito que o tema vai entrar na agenda dos candidatos.

Andrés Solimano discorre sobre o Capitalismo a la Chilena

P: – Como vê a economia da América Latina?

R: -América Latina tem tido sorte. Fomos afetados pela crise de 2009 mas em 2010 voltamos a crescer com certa desaceleração, continuamos a crescer porque a América Latina voltou-se para as matérias primas e o preço continua sendo alto para o cobre, petróleo, soja, café. As matérias primas são dinâmicas e como somos exportadores de matérias primas, isso permitiu que a região crescesse apesar da situação européia. Inclusive, o México, que destina 80% de suas exportações aos EUA, como este último se recupera, isso diminuiu o peso. América Latina reduziu o coeficiente da dívida, tem uma macroeconomia mais ordenada do que antes. A crise mundial também ajudou a América Latina. Cresce apesar do lento crescimento dos países desenvolvidos, porém depende muito da China. Saímos de uma posição de vulnerabilidade frente aos EUA e UE  e passamos para a China. Se a China vai bem, a América Latina também vai.

O setor manufatureiro como o do México teve problemas e agora se recuperou um pouco porque subiram os custos do Sri Lanka, Camboja, Vietnam e China. Mas nossos custos não são tão baixos como os do Vietnam. Mercosul tem um esquema distinto do nosso, um mercado regional com preferências tarifárias  um setor industrial protegido, mas resto da América Latina está afetada pela concorrência asiática. O que a América Latina não tem é um setor manufatureiro com alta tecnologia, preferiu viver de recursos naturais. Enquanto a economia mundial crescer, cresceremos mas somos vulneráveis.

P: – Você tem receio que os preços das matérias primas caiam?

R: – A América Latina é vulnerável se os preços das matérias primas caem porque há vários países com um déficit de conta corrente moderadamente alto.  Seria muito sério. Aconteceu na década de 80 mas a diferença daquele período para este é que hoje há flexibilidade cambial, salvo a Venezuela e Argentina, como também há uma situação fiscal mais moderada. Teremos mais vantagens do que antes se houver uma mudança nos preços.

P: – Nas últimas décadas se falou do modelo chileno.Crê que há modelos na região?

R: – Eu prefiro que cada país assuma o seu próprio modelo de desenvolvimento econômico, social. Importar modelos de outros países não deu resultados.

O modelo chileno trouxe crescimento econômico mas alta desigualdade e é muito dependente dos recursos naturais, como o cobre, madeira, pesca sem processar ou processados.  O modelo chileno tem tensões por causa das privatizações da educação. A educação é muito cara e aí está o problema do endividamento dos estudantes. Eu não recomendaria um modelo tão privatista. O modelo chileno macroeconômico foi bem planejado  para entregar ao setor privado a educação superior, as pensões e a saúde e a população gerou uma resposta social complicada.

P: – Então há outro modelo?

R: – É interessante que Argentina e Brasil puderam manter seu setor industrial Evitaram desmantelar a indústria. Também o Uruguai mantém sua educação pública. Em sociedades tão desiguais a educação é um grande fator para reduzir a desigualdade. Ainda que a educação pública tenha problemas é um fator importante para a estabilidade social. Eu extrairia o positivo de cada país.

P: Há contra-exemplos?

R: – Argentina e Venezuela tem os maiores problemas econômicos com regulação cambial. Os controles cambiais e ter vários tipos de câmbios são áreas um tanto complicadas da economia. Mas suas realidades não são tão transferíveis  aos outros países. Cada um tem sua história. A região é muito heterogênea: México, América Central e América do Sul, economias grandes, pequenas e médias com maior e menor ingressos de investimento. Há que ser pragmático e não transferir modelos.

P: – Por que acredita que Argentina e Venezuela estão complicadas?

R: – Venezuela fez vários ajustes cambiais e a brecha entre o dólar oficial e o paralelo da Argentina aumentou. Talvez haja problemas de sustentabilidade das políticas.

Fonte: El País  por Alejandro Rebossio

(tradução livre)

Comentário de Benigno no site:

É um tema conhecido e entendido pela maioria das pessoas. Os grupos de poder atuam e suas ações são percebidas no cotidiano e como isto se desenvolve na sociedade.

Sentindo-nos subsidiários desta dinâmica por imposição e necessidade de sobreviver. Mas por estar de acordo com essa forma de sociedade disforme, baseado de cima para baixo pela supremacia do poder econômico e político, em lugar de uma sociedade baseada em pessoas e na uniformidade da justiça social.  O conceito de que tem que existir uma sociedade pobre para que os poderes econômicos sejam fortes, é um erro que se desmorona à medida que o avanço tecnológico se amplia. E a sociedade cresce em quantidade e em qualidade. Para que o corpo vivo, como é a sociedade civil de nossas culturas se desenvolvam e não feneça é necessário um crescimento proporcional. A uniformidade e a justa proporção são a base da sustentabilidade do sistema. Enquanto se agigantam umas partes da sociedade e se fazem raquíticas outras, o corpo social disforme e injusto, se auto-regula destruindo a deformidade.

Um fenômeno que se dá sempre em toda a natureza que nos rodeia.

O bom que há na modernidade na qual vivemos é que a análise de qualquer fato se faz num nível global e de forma imediata. Sabendo no momento quais são as falhas e os defeitos a corrigir.

Assim como a publicação imediata dos mesmos e as responsabilidades concernidas. Permitindo ao menos a possibilidade da correção a tempo. Se a inteligência o aconselha e se deseja fazer.

 

Sobre midiacrucis

Rompendo o apartheid-midiático. Buscando informações que o PIG omite, distorce, oculta...desinforma.
Esse post foi publicado em América Latina, Campanha Lei da Mídia, Capitalismo, Cidadania, Comunicação, Direitos Humanos, Ditadura, Economia, Eleição, Guerra, neoliberalismo, PIG, Política, Soberania e marcado , , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Uma resposta para Capitalismo de elites

  1. Pingback: Foto do dia: Neymar é dilmete | SCOMBROS

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s