Mesquita caiu no conto do vigário de Lacerda


Mesquita caiu no conto do vigário de Lacerda

Cesar Fonseca em 22/05/2013

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É, sem dúvida, muito rica e extraordinária a história da família Mesquita, hoje, de luto com a morte de Ruy Mesquita(1925-2013), diretor de redação do grande jornal O Estado de São Paulo.

Ela está engajada nas lutas políticas pela afirmação democrática brasileira desde as campanhas abolicionista e republicana, no final do século 19. Entrou no século 20 sintonizada com os ideais democráticos tenentistas, florescentes, principalmente, depois da Guerra do Paraguai, quando os militares se auto-intitularam  defensores dos ideais republicanos, predispostos a ir adiante na mudança do regime, a fim de modernizar o país submetido a uma mentalidade colonial escravocrata, então comandada pelos interesses econômicos de uma classe social oligárquica ligada à produção primária exportadora, umbilicalmente subordinada ao capital internacional como sócia menor no desenvolvimento nacional dependente.

A Revolução de 1930, que nasce sob ideário nacionalista, conjugando o verbo industrializar, a exigir nova correlação de forças politicas entre o campo, onde reina a oligarquia, e a cidade, onde nasce o trabalhador organizado socialmente, mediante leis trabalhistas, produziria choques diante dos quais os Mesquita, contraditoriamente, se incomodariam. De um lado, a oligarquia cafeeira, à qual o jornal O Estado de São Paulo se ligava pelo espírito paulista quatrocentão reacionário; de outro, o novo discurso social dos trabalhadores, reivindicando direitos até então não aceitos, porém, indispensáveis, para dar sustentação ao capitalismo industrial nascente, dependente do consumo dos assalariados, pois, afinal a escravatura se tornara incompatível com a nova sociedade apoiada no consumo das massas, sem as quais as indústrias não teriam futuro.

No princípio da primeira metade do século 20, entre o conservadorismo oligárquico, ainda, muito forte e a emergência industrial renovadora dos costumes, Getúlio Vargas, nos anos trinta, radicalizaria o nacionalismo, contra o qual os Mesquita se arrepiariam, por considerá-lo veículo da anti-democracia.

Era a estratégia getulista para construir a nação, num contexto histórico dramático, quando o capitalismo do laissez faire, no mundo, sofria o violento crack de 1929, nos Estados Unidos.

As relações contraditórias entre capital e trabalho iriam se acirrar. Em 1932, Vargas interveio em São Paulo, onde nascia forte a industrialização, para evitar o rompimento do equilíbrio entre as forças anti-democráticas (oligarquias) e democráticas (trabalhadores no ambiente da ascensão industrial), ao mesmo tempo em que atuou para salvar a economia do café, jogando o tesouro nacional, para, keynesianamente, comprar estoques do produto, de modo a valorizá-lo no mercado nacional e internacional em baixa. Afastaria, dessa forma, o perigo de sucateamento da economia nacional e da paulista, em particular.

O presidente iria chamar de burra a nascente burguesia industrial de São Paulo, por não entender então sua jogada keynesiana para salvar o capitalismo em bancarrota. A crise econômico-financeira ameaçou a estabilidade. Os Mesquita se tornariam anti-getulistas radicais porque tomaram o partido de São Paulo, na tentativa paulista de separar o estado da Federação, diante da intervenção varguista economicamente estabilizadora.

Os Mesquita não entenderam que Getúlio, ao intervir em São Paulo, no auge das consequências destruidoras produzidas pela crise de 1929, protegeu o capitalismo e a sua representação política institucional democrática, embora mais cheia de vícios que de virtudes, naquela etapa histórica em que o mundo caminhava para o nazi-fascismo, levando ao golpe getulista em 37, depois da intentona comunista de 35. Quer dizer, Getúlio deu o golpe contra o comunismo, para salvar o capitalismo, a fim de afirmar o nacionalismo, mediante sacrifício da democracia representativa.

Ironias da história: 32 anos depois, em 1964, os Mesquitas, para derrubarem Jango, herdeiro espiritual de Getúlio, apoiariam golpe militar americano contra o perigo comunista, no Brasil. Pensaram (?) que estariam salvando a democracia! Colheram, com o apoio que deram ao golpe anti-democrático, o óbvio: a ditadura, que duraria  24 anos , de 1964 a 1984. Teriam razões morais para condenar Getúlio, 32 anos antes, como ditador, por ter derrotado os comunistas e salvado o capitalismo do crash de 29?

O fato é que a birra dos Mesquitas contra Getúlio e Jango se relaciona, essencialmente, não à defesa da democracia (por que apoiaram os brucutus em 1964?), mas à implementação do nacionalismo getulista-janguista, contrário aos interesses dos Estados Unidos, aos quais o jornal O Estado de São Paulo sempre se filiou, caninamente, em nome da preservação do direito de propriedade, do empreendedorismo e da liberdade, como se essas três causas fossem incompatíveis com o desenvolvimento nacionalista, como se o nacionalismo fosse uma causa, fundamentalmente, anti-democrática, ditatorial.

Grande equívoco dos Mesquita, como a história, atual, está comprovando, quando a America do Sul se encontra sob governos nacionalistas, vivendo plenitude democrática com forte distribuição da renda nacional, em plena crise global.  Na prática, o viés ideológico anti-nacionalista dos Mesquita se prende a um conservadorismo atávico decorrente da descrença da elite nacional, da qual os donos do Estadão fazem parte, na autonomia nacional para promover o desenvolvimento auto-sustentável, sem a subordinação dependente ao capital internacional, tarefa que o nacionalismo se propôs a alcançar, historicamente.

Essa postura anti-nacionalista dos Mesquita levaram-nos a construir, com Carlos Lacerda, a justificativa ideológica fascista de que o Governo Jango, em 1964, precisava ser derrotado porque sua plataforma política se assentava, essencialmente, na criação do que disseram ser a República Sindicalista em que o Brasil se transformaria sob ordens de Moscou. Ou seja, nada mais, nada menos que o discurso americano preparado por Lincoln Gordon, embaixador de Kennedy, para derrubar o nacionalismo janguista em marcha, apoiado por 65% da população, conforme pesquisa do Ibope, na ocasião.  Como sempre acontece, a mentira tem pernas curtas.

A farsa da República Sindicalista se desmoronaria por meio de espetacular investigação jornalística.  Em 1955, Lacerda divulgou, na Tribuna da Imprensa, carta atribuída ao deputado argentino Antônio Brandi, peronista, que, em nome de Peron, propunha criação de uma República Sindicalista na América Latina, a partir de um eixo Brasil-Argentina. A assinatura de Brandi era falsa, como descobriu o repórter Newton Carlos. Este, depois de viajar a Buenos Aires com o próprio Lacerda, constatou a malandragem. Alertou o dono da Tribuna para tal falsidade quanto à assinatura do parlamentar portenho. Lacerda ficou puto, explodindo de raiva:  “você não tinha nada que descobrir. O Jango que descobrisse…”

A República Sindicalista, que serviu de motivo para os Mesquita se engajarem no golpe anti-democrático, como reconheceu Ruy Mesquita, falecido, nessa terça feira, em São Paulo, foi, portanto, construída como jogada lacerdista de espionagem.

Depois da renúncia de Jânio, em 1961, Jango, vice-presidente, seria colocado sob suspeita de ter como plataforma governamental a materialização da República Sindicalista pelo lacerdismo golpista militante, amplamente apoiado pelos Mesquita. Todo o aparato conservador e reacionário, financiado por Washington, como demonstra o documentário de Camilo Tavares, “O dia que durou 21 anos” , assentou-se numa carta falsa, alardeada irresponsavelmente  pelo golpista Carlos Lacerda, cuja verve e inteligência extraordinária arrebanharia os Mesquita para uma causa inglória.

O equívoco histórico mesquitano ocorre, portanto, duas vezes. Nos anos 30 e nos anos 60. Nas duas oportunidades, os Mesquita lutaram contra o nacionalismo. As bandeiras nacionalistas de Getúlio, modernizadoras fundamentais do país, mereceram repúdio do grande jornal paulista conservador sob argumento de serem propostas ditatoriais. E em 1964, a bandeira nacionalista maior de Jango, a reforma agrária, para modernizar o capitalismo brasileiro, removendo o que havia ainda de coronelismo oligárquico no campo, sofreu o mesmo ataque, sendo vista pelos Mesquita como parte da ação terrorista-comunista para instalar no Brasil República Sindicalista.  Ingenuamente(?), os Mesquita acharam que o poder americano, tendo como representação a ditadura militar, a partir de 1964, implementaria ideais democráticos por impedir possível escalada comunista.

Debalde. Enfrentariam, a partir de então, a escalada ditatorial, a censura à imprensa, à destruição democrática, o bloqueio ao nascimento das verdadeiras lideranças etc. Os Mesquita ficaram numa encruzilhada histórica.

O restabelecimento democrático, no Brasil, se deu, depois de 1984, mediante as orientações econômicas neoliberais de Washington, advindas da crise monetária dos anos de 1980, que abalariam, profundamente, a credibilidade do dólar. Emergiu, desde então, volatilidade econômica radical sob moeda americana desvinculada do padrão ouro, impulsionada por desregulamentação financeira, que levaria o capitalismo, depois de uma fase de exuberância irracional, à grande crise de 2007-2008.

Os pressupostos neoliberais, norteadores do mesquitanismo político, foram para o espaço, fazendo o sistema capitalista mergulhar em profundas incertezas. Amarrados à ideologia neoliberal, os Mesquita, adversários das críticas ao capital especulativo, estão enfrentando grandes dificuldades em face do seu conservadorismo.

Este impede renovação da orientação fracassada sob a qual se arruínam, crescentemente, como demonstra as mudanças realizadas no grupo empresarial de comunicação, sempre no sentido de fragilizar a potência jornalística que outrora representou.  Por terem apoiado os militares, na primeira hora da “revolução”, mas desapoiado, na segunda hora, quando o regime endureceu, os Mesquita não conseguiram o que Roberto Marinho, apoiador na primeira e na segunda hora da ditadura, conseguiu: um canal de televisão, para ampliar a sua força econômica e industrial, que na fase neoliberal da nova República, ganharia ainda mais força.

O horizonte que se descortina, debaixo dos mandamentos da revolução tecnológica e informativa on line, que elimina, crescentemente, leitores de jornais, especialmente, dos que não se modernizam em face dos embates ideológicos altamente contraditórios, não mostra luz no final do túnel.

As reformas que o jornal anuncia são sempre vistas como samba de uma nota só: enxugamento de gastos, com ampla demissão de pessoal, ou seja, com queda de qualidade do produto cuja essência é a mesma, aquela que está, aos olhos dos leitores, deixando de ser útil, por não ser mais verdade.

“Tudo que é útil é verdadeiro. Se deixa de ser útil, deixa de ser verdade”(Keynes, a propósito da validade relativa da ideologia utilitarista, suprassumo ideológico do capitalismo).

A morte de Ruy Mesquita coloca o famoso Estadão diante de grande dilema, em meio à revolução das comunicações: abrir-se ao multilateralismo informativo e opinativo, rompendo seu visceral conservadorismo, visto que as verdades eternas liberais, adotadas pelo jornal, foram para os ares no ambiente da bancarrota capitalista em marcha, ou continuar abraçado aos equívocos históricos ancorados na negação da função modernizadora que o espírito nacionalista produz e que a família Mesquita repudia.

As contradições seguem sendo a norma do seu comportamento, embora destaque seguir uma coerência de princípios, que vão deixando de ser historicamente válidos.

Hoje, os Mesquita demonizam o clamor nacional em favor da democratização dos meios de comunicação, mas, ontem, como demonstra, no site Carta Maior, o artigo de Inês Nassif,

“O Estadão, a democracia e a ditadura midiática” , pregavam contra a crescente oligopolização do poder midiático em cujas fileiras se encontra, vocalizando sua verdade neoliberal, que poderia ser considera uma neo-carta Brandi, pura farsa.

Sobre midiacrucis

Rompendo o apartheid-midiático. Buscando informações que o PIG omite, distorce, oculta...desinforma.
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