Banqueiros e mídia dependentes dos tomates


Com inflação em queda, cresce o desespero pela alta dos juros

Alarde sobre inflação acima da meta só serve para pressionar o Copom a elevar a taxa Selic

Não há nada que demonstre de forma tão clara que os berros, guinchos e gritos (em uma palavra: a histeria) pelo aumento dos juros nada tem a ver com qualquer combate à inflação, que o fato desses ruídos aumentarem depois que o IBGE revelou, na quarta-feira, que a inflação, pelo IPCA, está em queda.

Na mesma quarta-feira, um periódico “econômico” deixou escapar o segredo de polichinelo:

As circunstâncias mudaram e elas não têm relação com a inflação. (…) O que está em jogo, agora, é a credibilidade do Copom (…). A ideia de começar um ciclo de alta do juro apenas em maio foi solapada pelas declarações da presidente Dilma Rousseff em Durban, há duas semanas. A presidente expressou um claro incômodo com o plano, em curso, de se combater a alta de preços com aperto monetário. O desmentido feito em seguida não foi capaz de substituir a mensagem original. (…) A provável antecipação da decisão é para mostrar que o Banco Central tem autoridade e suas decisões não são tomadas no Palácio do Planalto. (…) Por outro lado, era preciso encontrar um argumento “técnico”para legitimar a mudança de estratégia, do contrário, o BC seria visto em Brasília como caudatário do mercado (…) Por causa da indicação de Tombini, nos últimos dias o mercado passou a especular sobre qual resultado do IPCA em março deflagraria um aumento da Selic em abril” (Valor Econômico, 10/04/2013, grifos nossos).

Para esses, que se dane a muito mais importante e muito mais verdadeira credibilidade da presidente Dilma. Dirão que nunca a colocaram em dúvida, mas é mentira: o texto que transcrevemos é uma tentativa de desmoralização e desrespeito ostensivo a uma presidente eleita por dezenas de milhões de votos – além de ser a defesa de uma fraude, como se fosse a coisa mais normal do mundo inventar argumentos “técnicos” para justificar um roubo ao Erário.

Entretanto, eis um resumo do resultado do IPCA, segundo o IBGE: o aumento do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que mede oficialmente a inflação, caiu pela terceira vez em três meses – dessa vez para 0,47% em março, contra 0,60% em fevereiro e 0,86% em janeiro. Com isso, a variação mensal do IPCA voltou ao nível de agosto do ano passado, antes que alguns fatores, inteiramente fortuitos (por exemplo, fatores climáticos), aumentassem alguns preços. Mais importante, a tendência é de queda nos próximos meses.

Talvez valha a pena detalhar um pouco (só um pouco) algumas das constatações do IBGE, pois a grita midiático-financeira é, também, uma tentativa de abafar o conhecimento delas.

Dos nove grupos de preços que compõem o IPCA – 1) “alimentação e bebidas”; 2) “habitação”; 3) “artigos de residência”; 4) “vestuário”; 5) “transportes”; 6) “saúde e cuidados pessoais”; 7) “despesas pessoais”; 8) “educação”; 9) “comunicação” – apenas dois (“habitação” e “comunicação”) apresentaram, em março, maiores aumentos quando comparados ao mês anterior.

Mesmo no caso desses dois grupos, o impacto na composição do índice geral de 0,47 foi mínimo: 0,07 ponto percentual (p.p.) no caso dos preços da habitação e 0,01 p.p. no caso da “comunicação”.

Os aumentos de preços do grupo que teve maior peso (“alimentação e bebidas”), caíram de 1,45% (fevereiro) para 1,14% (março), com uma redução do impacto no índice geral de 0,35 p.p. para 0,28 p.p.

Também é a terceira vez em três meses que os aumentos de preços do grupo “alimentação e bebidas” caem: em janeiro, seu aumento foi de 1,99% – portanto, houve uma queda de 0,85 p.p. (ou seja, -42,71%) no aumento dos preços deste grupo.

Só por curiosidade: o tomate, que se tornou o gênero alimentício favorito dos bobos e dos vigaristas neste início do ano, também freou seu aumento de preço (em14 pontos percentuais a menos!). Naturalmente, para quem gosta de tomate, ele está caro – mas, certamente, nem os fãs desta ilustre solanácea acreditam que seu preço seja o determinante da inflação.

A tendência geral é de queda. Alguns alimentos tiveram, já, alguma redução apreciável de preço no ano (açúcar refinado, -4,77%; açúcar cristal, -3,87%; arroz, -2,28%; óleo de soja, -2,66%). Outros estão reduzindo os aumentos mensais. Para os produtos não-alimentícios, o aumento de preços reduziu-se a 0,25% em março (contra 0,33% em fevereiro).

Por fim, quanto à badalada “inflação dos serviços”, espantalho que os porta-vozes da máfia financeira sacodem para apavorar alguns tolos, ela caiu de 1,3% (fevereiro) para 0,26% (março).

Contra esses dados mensais, é uma imbecilidade e uma fraude levantar – e fazer alarde em manchetes de jornal ou pela histrionice televisiva de senhoritas pouco satisfeitas e pouco atraentes, em dupla com duvidosíssimos cavalheiros – que o IPCA em 12 meses estourou a meta de inflação, pois foi de 6,59%, portanto, 0,09 p.p. acima dos 6,5% que são o limite superior da meta de inflação.

Evidentemente, esses 6,59% correspondem ao passado, isto é, são a inflação passada, e não a presente ou a futura – que estão em queda. O aumento de juros, evidentemente, não tem o condão de modificar o que já aconteceu. Portanto, o alarde em torno desses 6,59% somente serve para abafar o presente, ou seja, o fato de que a inflação está em queda.

Mas, se a inflação está em queda e mesmo assim eles continuam gritando pelo aumento dos juros, isso somente prova que o problema deles não é a inflação.

Não apenas porque, como disse o economista Luiz Roberto Cunha, da PUC do Rio, se a inflação não se conforma com a meta (ou com o centro da meta) isto pode ser o sinal de que a meta está errada, “sugere que a meta é de 5,5% e não 4,5%”.

Realmente, só a rasteirice neoliberal pode escolher um número arbitrário, sem nenhuma base na realidade, e achar que esta deve se encaixar ao que é, somente, o interesse do setor financeiro externo, qual seja, o de aumentar os juros às custas do crescimento, pois o regime de metas de inflação não mudou em relação à descrição feita recentemente por um autor, em artigo sobre essa invenção neoliberal: “O regime de metas (…) apontava como causa da inflação o crescimento econômico que geraria excesso de demanda e pressão sobre os preços” (João Sicsú, “Dilma, a inflação e os neoliberais”, Carta Capital, 02/04/2013).

O problema  dos idólatras dos juros, levitas da agiotagem e capangas da especulação não é a inflação, mas o crescimento – mesmo quando este não chegou a 1%, como em 2012.

Por quê?

Porque são representantes, porta-vozes ideológicos ou membros de um minúsculo setor que é parasitário – toda a sua “economia”, e suposto “bom senso”, consiste em sugar o organismo econômico, basicamente através dos juros, drenando recursos da produção, dos salários, dos cofres do Estado, enfim, de toda a sociedade, sempre às custas do crescimento, como, aliás, é óbvio em qualquer parasitismo.

Assim, quanto menor a meta de inflação, quanto mais irrealista ela for, melhor para eles, que pretendem usar a inflação como pretexto para aumentar os juros.

A rigor, trata-se de vampirismo.

CARLOS LOPES do Hora do Povo 

 

Sobre midiacrucis

Rompendo o apartheid-midiático. Buscando informações que o PIG omite, distorce, oculta...desinforma.
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2 respostas para Banqueiros e mídia dependentes dos tomates

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