Javert Barbosa contra Jean Valjean


 Não sei porque, ou talvez saiba, me deu vontade de escrever sobre o prefeito Madeleine, alias Jean Valjean, cujo mandato foi interrompido, quando acabava de criar bolsas de ajuda para os miseráveis da época. No seu pouco tempo na prefeitura, tinha criado cotas para as crianças descalças e maltrapilhas poderem ir à escola e, falava-se no mercado nas escolas e hospitais por ele criados na cidade. Os descendentes dos africanos para ali levados, no passado como escravos, até ali considerados como cidadãos de segunda classe, tiveram reconhecida sua condição de seres humanos iguais aos brancos da elite, que antes governavam a cidade.

escrito por Rui Martins

Fonte: Direto da Redação

Berna (Suiça) – A história todos vocês conhecem, basta refrescar a memória. O escritor Vitor Hugo, socialista, impressionado com a miséria na França, escreveu um volumoso livro falando dos Miseráveis, best seller na época e já transformado em filme, peça de teatro, comédia musical, quadrinhos e telenovelas, em todo mundo.

Conta a vida de Jean Valjean, nascido em 1780, condenado aos trabalhos forçados por ter roubado um pão, mas é também o relato de como o inspetor de polícia Javert, um honrado defensor da lei que nunca deixou de perseguir o ex-presidiário, nem quando ele se tornou um homem de bem e chegou a prefeito de uma cidade francesa, onde protegia os pobres, negros e prostitutas, enfim todos os excluídos.

Conta Vitor Hugo que Jean Valjean deixou de roubar, quando um bispo lhe doou baixelas e lustres de prata, com cuja venda conseguiu começar nova vida. Trabalhador conseguiu montar uma pequena indústria e prestativo granjeou a admiração da população. Tinha mudado de nome, era o senhor Madeleine, e foi assim que se elegeu prefeito.

Ao defender uma prostituta, que Javert mandara prender, foi reconhecido como Valjean pelo inspetor. E teve de abandonar seu posto de prefeito e recomeçar a fuga, sempre perseguido pelo inspector, obcecado pelo cumprimento da lei. A cidade perdeu seu prefeito Madeleine e foi esquecida pelo escritor, mas se pode imaginar o desconsolo da população pobre, desprovida do seu protetor.

Vitor Hugo,  que precisou fugir da França e se tornou exilado durante algum tempo na Dinamarca, quis colocar no centro da história, o pobre obrigado a roubar, massacrado pela sociedade, mas reconduzido ao bem, em oposição ao inspetor Javert, para o qual o funcionário de polícia não pode se enganar, dedicando sua vida ao cumprimento rigoroso da lei. Os bandidos, dizia ele, estão irremediavelmente perdidos, para eles não há salvação e merecem a prisão e os trabalhos forçados.

Não sei porque, ou talvez saiba, me deu vontade de escrever sobre o prefeito Madeleine, alias Jean Valjean, cujo mandato foi interrompido, quando acabava de criar bolsas de ajuda para os miseráveis da época.

No seu pouco tempo na prefeitura, tinha criado cotas para as crianças descalças e maltrapilhas poderem ir à escola e, falava-se no mercado nas escolas e hospitais por ele criados na cidade. Os descendentes dos africanos para ali levados, no passado como escravos, até ali considerados como cidadãos de segunda classe, tiveram reconhecida sua condição de seres humanos iguais aos brancos da elite, que antes governavam a cidade.

Pode-se desculpar Javert mas não perdoar. Ex-carcereiro, policial que chegou a inspetor, passara sua vida a aplicar a lei, inclemente, rigoroso, sem piedade. Era assim que via a sociedade, sujeita á observância das leis, sem perceber que ao provocar a fuga do prefeito Madeleine, permitiu que voltassem à direção da cidade os exploradores com salários indignos para seus trabalhadores e se retornasse a uma sociedade local de privilegiados e excluídos. E de que adiantava seu rigor, se seus colegas inspetores faziam vista grossa aos corruptos e bandidos de toda espécie, livres de roubarem e explorarem.

Foi o próprio Javert quem teve consciência de não ser herói nacional e, por isso mesmo, se suicidou jogando-se no rio Sena, onde se afogou.

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