Uma visão sionista do mundo e o massacre em Gaza


Logo depois que meu artigo, de 4/11, “In Defense of Richard Falk”[1] [Em defesa de Richard Falk] foi publicado no blog Media with a Conscience (MWC), o editor enviou-me uma resposta especialmente grandiloquente. De estranhar, porque vinha assinada por intelectual e autor relativamente conhecido, de nome Fred Skolnik.

Fonte: VilaVudu

O Sr. Skolnik é editor-em-chefe de uma Encyclopedia Judaica de 22 volumes, em 2ª edição, trabalho que lhe valeu a Medalha Dartmouth em 2007.  É também autor de numerosos trabalhos de ficção, todos sobre a vida em Israel. Não é raro que sionistas me escolham para malhar, e Skolnik é, sem dúvida alguma, sionista. Mas é raro que os que decidam julgar e condenar tenham a estatura intelectual de Skolnik. Portanto, é absolutamente necessário responder.

A bandeira de Israel

O Sr. Skolnik não gosta do Dr. Falk, o qual, o leitor sabe, é o atual Relator Especial da ONU para os Territórios Palestinos. E, porque defendo Falk, Skolnik tampouco gosta de mim. De fato, na opinão de Skolnik sou parte de “um exército de odiadores de Israel (…) sempre agitando, infindavelmente (…) meias verdades venenosas” sobre a Terra de Israel. Apesar disso, Skolnik dedicou-se a escrever comentário de três páginas para corrigir a mim e meus leitores.

Diz que exporá “a causa de Israel no menor número possível de palavras, embora saiba que você talvez não publique minha resposta para não estragar o efeito que visa a alcançar.” Bobagem. Não tenho qualquer objeção a que meus leitores leiam, na íntegra, a resposta do Sr. Skolnik. Para ler, basta ir à página de MWC; procurar pelo meu nome: Davidson; selecionar “In Defense of Robert Falk”; e descer pela lista de comentários, até chegar ao comentário de Skolnik.

Resolvida essa parte, eis o que tenho a dizer sobre o que o Sr. Skolnik expõe como “a causa de Israel”.

1. Diz Skolnik: “Não há Palestina histórica que tenha algo a ver com os árabes, nem há ali população muçulmana ‘indígena’ ou nativa.” Essa é uma antiga fantasia, ou mito, que se desenvolveu ao longo dos anos, para permitir que sionistas radicais e colonos violentos racionalizassem a absorção histórica das terras dos palestinos.

Se se consulta o verbete “Povo Palestino” da Wikipedia, verbete que reflete a mais recente pesquisa sobre a questão de quem vivia onde e quando, inclusive com resultados de análise genética, aprende-se que os palestinos são “descendentes contemporâneos, hoje, dos que viveram ao longo de séculos na Palestina e que hoje são, na vasta maioria, culturalmente e linguisticamente, árabes. (…) A análise genética sugere que uma maioria dos muçulmanos da Palestina, inclusive os árabes que são cidadãos israelenses, são descendentes de cristãos, judeus e outros habitantes do sul do Levante, cujas raízes chegam aos tempos pré-históricos.”

Além disso, “estudo das sequências de DNA demonstraram que porção substancial dos cromossomas Y dos judeus israelenses (70%) e dos palestinos árabes muçulmanos (82%) pertencem ao mesmo conjunto cromossômico.”

Isso significa, precisamente, que os ancestrais daqueles palestinos que hoje são culturalmente e linguisticamente árabes vivem na Palestina desde tempos imemoriais.   Ao longo dos séculos, a população fragmentou-se, assumiu religiões e traços culturais e linguísticos diferentes. De fato, todos aqueles indígenas palestinos, judeus e cristãos locais, eles também, são basicamente o mesmo povo, que seguiu vias culturais em vários sentidos, separadas.

Triste é que o Sr. Skolnik apoie, hoje, tão ardentemente, a limpeza étnica de seus próprios primos.

2. Diz Skolnik: “A maioria dos árabes com ‘raízes’ na Terra de Israel migraram para lá de outras partes do mundo árabe no século 19 e início do 20, enquanto os judeus sempre estiveram presentes, continuadamente, na Terra de Israel, por mais de 3.000 anos.”

Aí está outro mito, introduzido, principalmente, por um livro de Joan Peters, publicado em 1984, intitulado From Time Immemorial [Desde tempos imemoriais]. O argumento do livro e as ‘provas’ foram examinadas e, uma a uma, demonstradas falsas por Norman Finkelstein, no livro Image and Reality of the Israel-Palestine Conflict (1995).

3. Diz Skolnik: “O deslocamento dos árabes na Terra de Israel durante a Guerra de Independência de Israel (…) foi acompanhado pelo deslocamento de centenas de milhares de judeus que viviam então em terras árabes, e que viviam vida insuportável sob o vingancismo da lei árabe.” Por isso, os israelitas “receberam de braços abertos os irmãos judeus”, enquanto os países árabes que receberam refugiados árabes “meteram-nos em campos e os trataram como animais.”

Para editor de enciclopédia de 22 volumos, Skolnik manifesta deplorável tendência a generalizações e estereótipos e, literalmente, a misturar e confundir eventos e efeitos que nada têm a ver uns com os outros. Alguns pontos historicamente bem conhecidos:

– A verdade é que o êxodo dos judeus árabes de seus países de residência aconteceu ao longo do tempo e, em alguns casos, como na Argélia, nada teve a ver com os eventos na Palestina. Em outros casos, o país árabe viu-se em guerra com Israel, como com o Egito, e a imigração de judeus foi resultado direto de os sionistas terem expulsado populações árabes. E no caso do Marrocos, o governo local muito tentou assegurar segurança e bem-estar aos judeus, na tentativa de retê-los, contra a propaganda sionista que tentava arrancá-los de lá.

– Em alguns casos, o “deslocamento” foi forçado, como aconteceu no Iraque, por agentes sionistas que cometiam violentos atos de sabotagem contra comunidades de judeus iraquianos.

– A recepção que os judeus árabes encontraram em Israel nada teve dos “braços abertos” que Skolnik pinta. Foram recebidos pelos “irmãos” judeus europeus com ativo preconceito racial. Mesmo hoje, ainda são tensas as relações entre azquenases e sefaraditas/Mizrachi dentro de Israel.

– Quanto aos refugiados árabes que, diz o Sr. Skolnik, teriam sido “tratados como animais” por outros árabes, o exagero é flagrante. Houve diferentes quadros em diferentes países. Por exemplo: no Líbano, foram maltratados; na Jordânia, foram bem tratados. Em nenhum dos campos de refugiados em país árabe as condições foram piores do que nas cidades-tendas e “cidades em desenvolvimento” no deserto de Negev, para onde os israelenses encaminharam 80% dos judeus árabes refugiados.

4. O Sr. Skolnik diz outras coisas, que não tenho nem espaço nem tempo para corrigir. Leitor interessado encontrará meus comentários no ensaio sobre o Dr. Falk. Quem se interesse e leia, cuide, por favor, de seguir as fontes referidas de informação – trabalhos de historiadores israelenses, como Ilan Pappe e Benny Morris e os artigos jornalísticos de Amira Hass e Gideon Levy (ambos jornalistas que trabalham para o jornal israelense Haaretz), e os relatórios do grupo israelense de defesa dos Direitos Humanos, B’Tselem. São, todas essas, fontes israelenses, mas narram história completamente diferente da que nos chega pelo Sr. Skolnik.

De Skolnik a Gaza

Como o Sr. Skolnik demonstra tão claramente, todos vivemos em nosso mundo próprio. Cada um desses nossos mundos é construído pela criação e pela educação que recebamos: a família, os amigos, as escolas, as universidades, o nível de conexão que desenvolvemos com nossa comunidade. Essa conexão é quase sempre sustentada e aprofundada pelo ambiente informacional que a comunidade nos fornece.

Esses ambientes nos convertem em “bons” cidadãos e, simultaneamente estreitam nossa visão do mundo, ao mesmo tempo em que vão conformando paradigmas políticos e culturais aceitáveis. O processo, em geral, funciona bem. Mesmo assim, é verdade que em qualquer comunidade há, ativo, um continuum de aceitação e concordância que vai do cético ao verdadeiro crente. Para o crente, a comunidade jamais erra, e o comportamento social pode sempre ser racionalizado. No que tenha a ver com Israel, Skolnik é verdadeiramente um crente.

Num país como Israel, ainda que você viva armado até os dentes, a sensação é de perene insegurança; e, se há crentes verdadeiros no governo, difícil imaginar situação mais perigosa. Ao longo dos anos, os líderes israelenses, quase sempre imbuídos da mesma fé que anima Fred Skolnik, tiraram dos palestinos todos os direitos e todos os bens, e cuidam hoje de fazer a limpeza étnica da região, empurrando os palestinos para áreas cada vez menores, onde são forçados a viver concentrados.

Gaza é o pior exemplo disso. É hoje uma “prisão a céu aberto” onde 1,5 milhão de seres humanos congestionam completamente uma superfície de 139 milhas quadradas – é a área de mais alta densidade populacional da Terra. Ali, com a cumplicade dos EUA e da União Europeia, os israelenses tratam de reduzir quase todos os habitantes à mais abjeta miséria.

Quando, periodicamente, aquelas pessoas erguem-se contra seus torturadores, quase sempre sem maior efeito, são imediatamente definidos como “terroristas” e, outra vez com o apoio do ocidente, furiosamente atacados, com violência desproporcional, pelos israelenses. Hoje, já se assiste ao massacre ao vivo, em tempo real, pela internet.

Nessas circunstâncias, não fazem qualquer sentido os argumentos de Skolnik, de que os judeus estavam ‘antes’ na Palestina e que os árabes chegaram depois.

Mas digamos, só para argumentar, que Skolnik esteja certo, que os judeus, também os que chegaram da Europa e só conheciam a língua e a cultura europeias, fossem, por alguma razão os ‘autênticos’ palestinos nativos, que estariam de volta à terra natal depois de uma ausência de (no mínimo) 2.000 anos.

Ainda que essa ficção contivesse um átomo de verdade, nem por isso os israelenses de 2012 teriam algum direito de tratar como tratam os palestinos. O que, nessa história fictícia, e mesmo que fosse toda ela verdadeira, daria aos israelenses de hoje o direito de matar palestinos? O que, nessa história fictícia, e mesmo que fosse toda ela verdadeira, daria aos israelenses de hoje o direito de construir muros de apartheid em toda a Cisjordânia ocupada? O que daria aos israelenses de hoje o direito de reduzir 1,5 milhões de habitantes de Gaza a um projeto de empobrecimento calculado, para, então, porem-se os israelenses a provocá-los até que reajam, reação que, então, daria aos israelenses o ‘direito’ de promover assassinato em massa de palestinos?

Não acredito em nada na pseudo-história de Skolnik. Nada me interessa ou preocupa menos, do que saber quem vivia ou quem mandava na Palestina há 3.000 anos. Os que hoje controlam a Palestina não são, em nada, superiores aos bárbaros. E os líderes, em todo o ocidente que os apoiam têm, hoje, as mãos manchadas do sangue dos palestinos.

Onde se trate de limpeza étnica e genocídio cultural, é incabível, é inadmissível, falar de autodefesa. E nenhuma das fantasias de Fred Skolnik algum dia bastarão para justificar os crimes em curso.

Sobre midiacrucis

Rompendo o apartheid-midiático. Buscando informações que o PIG omite, distorce, oculta...desinforma.
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