Por que o Qatar quer invadir a Síria


Que ninguém se engane (Make no mistake, como diria o presidente Barack Obama): o Emir do Qatar entrou na dança.

Vídeo:

Obama on the Emir of Qatar’s view of democracy

Que aparição, na Assembleia Geral da ONU em New York! O Xeique Hamad bin Khalifa al-Thani convocou uma coalizão de vontades árabes, nada mais nada menos, para invadir a Síria.[1]

Nas palavras o Emir, “Melhor para os países árabes que eles mesmos interfiram, cumprindo seus deveres nacionais, humanitários, políticos e militares e façam o que tem de ser feito para parar o banho de sangue na Síria.” Destacou que os países árabes têm um “dever militar” de invadir.

“Países árabes” significa, nessa frase, as petromonarquias do Clube Contrarrevolucionário do Golfo (CCG), antes chamado Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) – com ajuda implícita da Turquia, com a qual o CCG tem um amplo acordo estratégico.

Não há botequim no Oriente Médio em que todos não saibam que Doha, Riad e Ankara estão armando/financiando/abastecendo com ajuda logística as várias tendências da oposição armada na Síria que obram pela mudança de regime.

O Emir até citou um “precendente similar” dessa invasão, quando “forças árabes intervieram no Líbano” nos anos 1970s. Já que ele tocou no assunto: durante boa parte daqueles anos 1970s, o próprio Emir vivia engajado em intervenções mais mundanas, como deixar crescer os cabelos, ombro a ombro com outros membros da realeza golfista em seletos destinos à moda do Club Med, como mostra essa foto (o Emir é o da esquerda[2]).

O Emir, pois, está pregando uma versão árabe da doutrina da R2P (“responsabilidade de proteger”) proposta anteriormente pela Três Graças da Intervenção Humanitária (Hillary Clinton, Susan Rice e Samantha Power)?

É mensagem que com certeza já chegara a Washington – para nem falar de Ankara e mesmo a Paris, dado que o presidente francês François Hollande acaba de pedir que a ONU dê proteção a “zonas libertadas” na Síria.

Quanto ao precedente libanês que o Emir lembra, não é coisa que se recomende, para dizer o mínimo. A chamada Força Árabe de Contenção, de 20 mil soldados, que entrou no Líbano para tentar conter a guerra civil, lá ficou por nada menos de sete anos, convertida em força militar da ocupação síria no norte do Líbano, de onde só saiu oficialmente em 1982, com a guerra civil ainda rugindo solta.

Imaginem cenário semelhante na Síria – super bombado.

“Sujeito muito influente”

Quanto ao ardor humanitário do Emir – além de democrático –, ajuda saber o que pensa dele o presidente Barack Obama.[3] Obama – para quem o Emir é “sujeito muito influente” – parece sugerir nessa fala que, embora “pessoalmente, não esteja reformando muito” e “não se vê grande movimento na direção da democracia no Qatar”, só porque a renda per capita do emirado é gigantesca… nenhum  movimento pró-democracia seria, assim, digamos, muito urgente. OK. Nada sugere, mesmo, que o Emir esteja muito interessado em fazer da Síria uma Escandinávia.

Assim, afinal, se abre o caminho que leva a um motivo do qual ninguém nunca consegue escapar – ligado a, e a o que mais seria? – o Oleogasodutostão.

Vijay Prashad, autor do recente Arab Spring, Libya Winter, está preparando uma série sobre o Grupo de Contato Sírio, para Asia Times Online. Vijay recebeu um telefonema de um especialista em energia, que lhe disse que investigasse urgentemente “a ambição do Qatar de levar seus oleodutos até a Europa.” Segundo essa fonte, “a rota proposta passaria pelo Iraque e Turquia. O país de passagem antes cogitado está dando problemas. Mais fácil seguir para o norte (o Qatar prometera gás gratuito à Jordânia).”

Mesmo antes de Prashad terminar sua pesquisa, já está claro o plano do Qatar: matar o óleogasoduto de US$10 bilhões Irã-Iraque-Síria, negócio firmado apesar de o levante sírio já estar em andamento.[4]

Aqui se vê o Qatar concorrendo diretamente contra, ao mesmo tempo o Irã (como produtor) e a Síria (como destino) e também, em menor extensão, contra o Iraque (como país de passagem). Bom lembrar que Teerã e Bagdá são figadalmente contra mudança de regime em Damasco.

O gás viria da mesma base geográfica/geológica – de Pars Sul, o maior campo de gás do mundo, partilhado por Irã e Qatar. O gasoduto Irã-Iraque-Síria – se algum dia for construído – solidificaria um eixo predominantemente xiita, costurado por um cordão umbelical econômico, de aço.

O Qatar, por sua vez, construiria seu gasoduto por uma via “sem Crescente Xiita”, com a Jordânia como destino; as exportações partiriam do Golfo de Aqaba para o Golfo de Suez e dali para o Mediterrâneo. Seria o Plano B ideal, com as negociações com Bagdá tornando-se cada vez mais complicadas (além do que, a rota que atravessa Iraque e Turquia é muito mais longa).

Washington – e os consumidores europeus – muito apreciariam um gambito crucial no Oleogasodutostão que passasse a perna no Gasoduto Islâmico.

Claro que, com mudança de regime na Síria – ajudada pela invasão que o Emir do Qatar propôs – as coisas ficariam muito mais fáceis em termos de Oleogasodutostão. Um regime pós-Assad, em mãos muito muito provavelmente da Fraternidade Muçulmana, seria muito, muito bem-vindo ao oleogasoduto qatari. E uma extensão para a Turquia seria ainda mais fácil.

Ankara e Washington venceriam. Ankara, porque o objetivo estratégico da Turquia é converter-se em principal entroncamento da passagem de energia do Oriente Médio/Europa Central, para a Europa (e o Oleogasoduto Islâmico deixa de fora a Turquia). Washington, porque toda sua estratégia energética no sudoeste da Ásia desde o governo Clinton sempre foi passar a perna, contornar, isolar e ferir de morte o Irã, servindo-se para isso de qualquer meio necessário.[5]

O periclitante trono hashemita

Tudo isso aponta para a Jordânia como peão essencial no audacioso jogo geopolítico/energético do Qatar. A Jordânia foi convidada a integrar o CCG – embora não fique exatamente no Golfo Persa (mas não importa. O que importa é que é monarquia).

Um dos pilares da política exterior do Qatar é o apoio incondicionado à Fraternidade Muçulmana – não importa a latitude. A Fraternidade Muçulmana já está na presidência do Egito. É forte na Líbia. E pode vir a ser a força dominante, se houver mudança de regime na Síria. O que nos leva à ajuda que o Qatar está dando à Fraternidade Muçulmana na Jordânia.

No momento, a monarquia hashemita jordaniana periclita, o que é subavaliação de proporções transcendentais.

Há fluxo ininterrupto de refugiados sírios. Que se somam aos refugiados palestinos chegados em ondas durante as fases cruciais da guerra árabes-Israel, em 1948, 1967 e 1973. Acrescente-se a isso um sólido contingente de jihadistas-salafistas que lutam contra Damasco. Há poucos dias, foi preso Abu Usseid. Sobrinho de ninguém menos que Abu Musab al-Zarqawi, ex-líder da al-Qaeda no Iraque, morto em 2006. Usseid estava a um passo de cruzar o deserto, da Jordânia para a Síria.

Amã enfrenta protestos desde janeiro de 2011 – iniciados antes de a Primavera Árabe alastrar-se. O rei Abdullah, também conhecido como Reizinho Playstation, e a fotogênica queridinha de Washington/Hollywood rainha Rania, não têm sido poupados.

A Fraternidade Muçulmana na Jordânia não é o único ator na onda de protestos: sindicatos e movimentos sociais também são ativos. Muitos manifestantes são jordanianos – e, historicamente, sempre controlaram os altos postos da burocracia do estado. Mas o neoliberalismo bateu duro ali; a Jordânia viveu processo selvagem de privatizações nos anos 1990s. O reino empobrecido depende hoje do Fundo Monetário Internacional e de doações extras que recebe dos EUA, do CCG e até da União Europeia.

O parlamento é piada – dominado pelas afiliações tribais e devoto da monarquia. Reformas, nem cosméticas. Um primeiro-ministro foi trocado em abril e praticamente ninguém nem viu. Monarquia árabe clássica, o regime combate as reivindicações, com mais repressão.

Nesse pandemônio, entra em cena o Qatar. Doha quer que o Rei Playstation acolha o Hamás. Foi o Qatar que promoveu o encontro, em janeiro, entre o rei e o líder do Hamás Khaled Meshaal – expulso da Jordânia em 1999. A reunião fez os jordanianos nativos temerem que o reino fosse inundado por nova onda de refugiados palestinos.

A mídia árabe – quase toda ela controlada pela Casa de Saud – está sendo inundada, isso sim, por matérias e editoriais que pregam que, depois de a Fraternidade Muçulmana subir ao poder na Síria, chegará a vez da Jordânia. Mas o Qatar está dando tempo ao tempo. A Fraternidade Muçulmana quer a Jordânia convertida em monarquia constitucional; assim, os Irmãos chegarão ao poder na sequência de uma reforma eleitoral contra a qual o rei Abdullah luta há anos.

Hoje, a Fraternidade Muçulmana já conta até com o apoio das tribos beduínas, cuja tradicional submissão ao trono hashemita nunca foi mais periclitante. O regime ignorou os protestos por tempo demais; agora, paga o preço. A Fraternidade Muçulmana já convocou manifestação de massa contra o rei, para o próximo dia 10/10. O trono hashemita cairá, mais cedo ou mais tarde.

Ainda não se sabe como Obama reagirá – além de continuar a rezar para que nada de substancial aconteça até 6/11. Quanto ao Emir do Qatar, tem todo o tempo do mundo. Quanto  mais regimes caiam (no colo da Fraternidade Muçulmana), tantos mais oleogasodutos se constroem.

*********************************************

Sobre midiacrucis

Rompendo o apartheid-midiático. Buscando informações que o PIG omite, distorce, oculta...desinforma.
Esse post foi publicado em EUA, Guerra, Manipulação, PIG, Política, Síria, Soberania e marcado , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s