Pinóquio: a mídia adere a fábula


«Mussolini no seu tempo apresentava a agressão fascista contra a Etiópia como uma campanha para libertar este país da chaga da escravidão; hoje a OTAN apresenta a sua agressão contra a Líbia como uma campanha para a difusão da democracia. No seu tempo Mussolini não cessava de trovejar contra o imperador etíope Hailé Sélassié chamando-o “Negus dos negreiros”; hoje a OTAN exprime o seu desprezo por Kadafi chamando-o “ditador”. Assim como a natureza belicista do imperialismo não muda, também as suas técnicas de manipulação revelam elementos significativos de continuidade. Para clarificar quem hoje realmente exerce a ditadura a nível planetário, ao invés de citar Marx ou Lénine quero citar Emmanuel Kant. Num texto de 1798 («O conflito das faculdades»), ele escreve: “O que é um monarca absoluto? Aquele que, quando diz: ‘a guerra deve fazer-se’, a guerra seguia-se efectivamente”. Argumentando deste modo, Kant tomava como alvo em particular a Inglaterra do seu tempo, sem se deixar enganar pela forma “liberal” daquele país. É uma lição de que devemos tirar proveito: os “monarcas absolutos” da nossa época, os tiranos e ditadores planetários da nossa época têm assento em Washington, em Bruxelas e nas mais importantes capitais ocidentais.».

Como se sustenta o império? Se sustenta com a força militar, mas também se sustenta com suas empresas e… com as Organizações Não Governamentais.

 É necessário um suplemento na consciência e uma vigilância crítica contra a indústria da manipulação e da falsificação (da Mídia) que é uma peça central da máquina de guerra do imperialismo.

Propaganda de guerra e Direitos Humanos por Domenico Losurdo

 O cerco midiático é tão forte que para contrastá-lo pensei que poderia folhear alguns jornais, tirar deles algumas informações e me limitar a comentá-las. A primeira pergunta que me faço, junto com vocês, é esta: “qual é o conteúdo? Quais são os objetivos que se propõem os supostos campeões da intervenção humanitária?”

De cara devo dizer que para entender estes problemas vou me ater, exclusivamente as fontes pro – ocidentais, as fontes ferrenhamente anticomunistas, e mais, as fontes ferrenhamente pro – imperialistas.

Começarei, por exemplo, com o International Herald Tribune, que como sabem é o diário internacional do New York Times. No artigo de 9 de fevereiro deste ano (o autor Efraim Halevi, logo direi quais são suas altíssimas credenciais), este autor disse:

“A esta altura não cabe dúvidas de que a Síria é o calcanhar de Aquiles do Irã. A derrota de Assad, a derrota do atual regime da Síria, significa não somente cortar os vínculos entre Síria e Irã como, sobretudo cortar os vínculos entre Síria e o Hezbollah no Líbano e entre Síria e o Hamas. Desta forma – prossegue o articulista que estou citando – o problema central é que o Irã deixe de exercer qualquer influência sobre a Síria. Qualquer outra coisa além deste objetivo não nos interessa (…). Ainda que Assad se vá, e se continuarmos a sentir a influência do Irã na Síria, não terá servido para nada.”

Percebem qual é o problema? Sobre os direitos humanos não dizem nem uma palavra, todos podem ler este artigo. O problema, então, é simplesmente romper a espinha do regime de Assad na Síria para debilitar por sua vez o Irã, Hezbollah e Hamás. Creio que é uma análise muito importante porque o autor deste artigo, Efraim Halevi – colocado no jornal que estou citando – foi do Conselho de Segurança de Israel, depois embaixador e mais tarde diretor do Mossad de 1998 a 2002. De modo que obtém informações em primeira mão sobre todos os objetivos que se deseja alcançar.

Bem, alguém poderia dizer: de acordo, estes são os objetivos perseguidos por Israel e o Ocidente. Mas Assad é tão brutal em seu ataque contra a população civil?

Porque esse é o fio condutor da propaganda de guerra que hoje se desencadeia. E então, a partir deste ponto de vista, vou citar uma vez mais fontes acima de qualquer suspeita. Por exemplo, cito o jornal La Stampa. Ibrahim Refat do Cairo, em 28 de dezembro de 2011, disse que “segundo fontes próximas da espionagem israelense, Qatar está preparando na Antioquia, próximo à fronteira entre Turquia e Síria, um destacamento de 2.500 homens”.

Atentem que a data, 28 de dezembro, já passou algum tempo: não houve manifestação pacífica, mas sim intenção de desestabilização e os ataques foram de fora para dentro.

Se quisermos aprofundar mais esta análise, então cito o Corriere della Sera de 10 de fevereiro de 2012. O autor é Guido Olimpo e já no título diz que os rebeldes sírios têm o respaldo de forças especiais do Qatar, Arábia Saudita e do ocidente.

Certamente, não devemos esquecer a dimensão interna do conflito. Não quero me deter muito nisto. É indubitável, por exemplo, que entre os rebeldes há forças que só podem ser chamadas de fundamentalistas. Para falar claramente da Al Qaeda e a respeito, citarei mais uma vez o La Stampa de Turin, neste caso um artigo de 17 de fevereiro escrito por Lucia Annunziata (também neste caso a fonte é impecável): “O curso dos acontecimentos converte, a nós, os ocidentais em aliados de fato dos “terroristas” que perseguíamos ontem”. Terrorista está entre aspas, mas as aspas não mudam nada. “Estamos do mesmo lado – sigo citando a esta senhora – dos sunitas pós-Sadam, dos Irmãos Muçulmanos e inclusive da Al Qaeda”

Poder midiático

Podemos fazer uma primeira consideração. O imperialismo estadunidense não é forte somente no plano militar. Podemos afirmar, inclusive, que esta força militar é inferior a força que podem exercer no plano midiático. Me atreveria a dizer que é capaz de operar milagres. Por quê? Porque basta que o inquilino da Casa Branca decida que alguns homens armados sejam freedon fighters, “combatentes pela liberdade”, para que os terroristas de ontem se convertam em combatentes pela liberdade. Se mais tarde estes combatentes pela liberdade se tornarem indigestos para a polícia de Washington, um novo milagre de transubstanciação – creio que assim chamam os teólogos católicos – fará com que os combatentes pela liberdade voltem a ser terroristas.

Ocorreu nos tempos da guerra no Afeganistão contra a União Soviética: segundo Reagan eram os freedom fighters, combatentes pela liberdade, depois se tornaram terroristas, agora na Síria, outra vez, voltam a ser combatentes pela liberdade, mas o que serão no futuro, como sempre, o inquilino da Casa Branca decidirá.

Tracemos um panorama geral da situação na Síria. Também neste caso vou citar fontes e jornais que não podem ser considerados suspeitos.

Neste caso cito o Frankfurter Allgemeine Zeitung (como sabem, este jornal é semelhante ao Corriere della Sera alemão), o artigo de 19 de dezembro de 2012 de Jürgen Todenhöfer. (minhas informações são bastante variadas por um motivo circunstancial: neste período passei bastante tempo nos aeroportos e pude ler a imprensa internacional. Embora leia frenquentente, neste período isto foi mais intenso). Como dizia o artigo intitulado “A tragédia na Síria” e ele diz claramente que não se trata de democracia, se trata de um grande jogo político que se desenvolve não somente no plano militar, mas também no plano midiático.

Cito, pois, o Frankfurter Allgemeine Zeitung:

Junto as operações militares há uma gigantesca campanha midiática a moda de Pinoquio”, isso diz o jornalista, a maneira de Pinóquio, o nariz grande pelas mentiras. E coloca vários exemplos dos embustes sistemáticos que se difundem. São imagens que muitas vezes correspondem ao Iraque de 2007 ou ao Líbano em 2008. “O canal de televisão estadunidense ABC teve que se desculpar por ter veiculado imagens do Líbano como sendo da Síria”. O autor do artigo disse que passou um mês na Síria para verificar a autenticidade das informações horripilantes que transmitiram e denunciou:

“Pelo menos uma de cada duas informações eram falsas”.

 Os civis

E os civis? O mesmo artigo menciona o informe dos observadores da Liga Árabe. Como sabem, esta delegação da Liga Árabe não era precisamente favorável a Assad. Pois bem, deste informe que foi rapidamente silenciado se desprende uma realidade muito mais complicada do que a que hoje nos querem apresentar. O informe, segundo lembra o jornalista, menciona graves ataques dos rebeldes contra os civis. Neste caso os que lançam graves ataques contra os civis, segundo o informe da própria comissão da Liga Árabe, são os rebeldes. Por exemplo, eu sigo citando o Frankfurter Allgemeine Zeitung, uma bomba contra o ônibus que matou também mulheres e crianças.

A conclusão sobre este aspecto do artigo do Frankfurter Allgemeine Zeitung , lerei com especial ênfase porque merece ser destacada: “Há muito tempo na Síria que já não está claro quem mata mais civis se são as forças de segurança ou os rebeldes”. Também se refere a Homs, onde esteve duas vezes: “Ainda se vê muitas fotos de Assad e em 70% de Homs a vida segue seu curso normal”. E no que diz respeito à oposição síria? De novo cito a fonte confiável: ele não a denomina de oposição síria, mas sim se refere à “oposição síria no exterior”, que muitas vezes leva muitos anos vivendo fora da Síria e nem mesmo ensinam árabe aos seus filhos, pois eles fazem parte do Ocidente”. E conclui o texto com um elogio à Rússia. Nada diz da China, somente da Rússia, e diz: “As propostas mais sensatas foram feitas pela Rússia, que tratou de convocar em Moscou as partes conflitantes para chegar a um acordo que solucione o conflito”.

 A guerra contra o Irã já começou

Como vêem o quadro que emerge é bastante interessante. Tratei de reconstruir partindo de fontes pro – ocidentais e é um panorama que desmente totalmente a campanha em curso, a qual se somou de maneira servil boa parte do jornalismo ocidental e diante da qual, tenho que dizer que certos intelectuais, que se poderia entender de esquerda, se mostram vacilantes, confusos.

Enquanto a campanha se agrava na Síria, a guerra contra o Irã na realidade já começou e também neste caso recorro as minhas fontes, como por exemplo, um artigo do International Herald Tribune de 13 de janeiro, uma correspondente de Washington, que diz, que o modo de fazer guerra contra o Irã

“não é uma guerra tradicional que poderia provocar sentimentos de lealdade patriótica e unir a oposição com o regime”,

estou citando o International Herald Tribune. Não, a melhor maneira de fazer guerra contra o Irã é

“seguir como até o momento”, sigo citando, “quer dizer, com ações encobertas, o assassinato de cientistas, o terror que isto provoca entre os cientistas que ainda não foram assassinados, a sabotagem, mas também a intenção de provocar certas minorias nacionais contra o regime, contra o governo central.”

Destas fontes jornalísticas se desprende sempre a forte presencia do Mossad nestas tentativas de agitar as minorias nacionais. Ações encobertas, bem encobertas, mas nem tanto como para que não saibamos que estas ações sao avalizadas pelo Premio Nobel da Paz que está em Washington.

Que objetivos perseguem? O objetivo geopolítico evidentemente, em suma, está a questão da temida bomba nuclear iraniana. O cúmulo da hipocrisia é que temos um país armado até os dentes com bombas nucleares; e não me refiro, evidentemente, somente aos EUA mas também a Israel, que se eleva à categoria de juiz para julgar se há ou não a suposta bomba nuclear iraniana.

Mas o mais interessante é um aspecto que, entre outras coisas, resplandece em outro artigo do International Herald Tribune de 17 de janeiro assinado por Roger Cohen – como indica seu sobrenome, provavelmente de origem judaica -. Diz claramente que para Israel o casus belli não é o armamento nuclear do Irã. Mesmo que o Irã não fabrique nenhuma bomba nuclear mas desenvolva tanto no plano tecnológico como no do conhecimento e fosse capaz de fabricar a bomba nuclear e ainda que não fabricasse uma sequer, somente o acesso ao conhecimento tecnológico seria mais do que suficiente para que Israel desencadeasse a guerra contra o Irã. É justamente aí, que a marca imperialista e colonialista se mostra em toda sua nudez: não se trata unicamente de reforçar a presença de Israel e dos EUA.

Os direitos humanos

E os direitos humanos?  Deles, nos artigos citados não se fala muito, digamos, não se fala nada. Mas a questão dos direitos humanos, na realidade, se considera. Por quê?

Se ocorrer a derrubada de Assad na Síria se produzirá efetivamente um enfraquecimento radical do Irã e um enfraquecimento radical tanto do Hezbollah como do Hamás; a situação dos direitos humanos do  povo palestino não melhoraria, ao contrário pioraria ainda mais e pioraria de forma catastrófica. Assim que, na realidade, quando se diz que o objeto desta campanha são os direitos humanos, esta afirmação pode ser tomada seriamente se acrescentar que a campanha irá pisotear ainda mais os direitos humanos do povo palestino, atormentando ainda mais um povo martirizado há décadas e décadas.

Investir contra o Hezbollah significa investir contra um grande movimento de liberação nacional que, não nos esqueçamos, com sua luta conseguiu acabar com a ocupação israelense de uma parte considerável do território libanês.

Mas os direitos humanos também estão implicados por outro motivo, e para explicar este outro motivos não quero citar agora nem Marx, nem Lênin, quero citar um presidente dos EUA  que não é atual (deus nos livre) mas Franklin Delano Roosevelt, o presidente que governava os EUA durante a Segunda Guerra Mundial.

Antes de intervir na Segunda Guerra Mundial, que já havia irrompido mas os EUA não tinham entrado, Franklin Delano Roosevelt pronunciou um discurso que se tornou famoso, o discurso das Quatro Liberdades em que disse que: uma liberdade fundamental que deve existir se realmente se quer reconhecer os direitos humanos é a “liberdade de não ter medo”, freedom for fear.

Quando faz esta afirmação, Franklin Delano Roosevelt critica diretamente a Hitler, porque este semeava o medo e o terror não somente nos países já bombardeados e invadidos, mas também nos países que corriam perigo de serem bombardeados e invadidos e que viviam submetidos ao terror da superpotência militar. O que dizer hoje do país que estabelece a liberdade de não ter medo, que não é a Alemanha hitleriana senão o próprio país de Franklin Delano Roosevelt, depois governado por Bush Junior e hoje por Obama, sem que haja grandes diferenças de um governo para outro.

O argumento dos direitos humanos é particularmente ridículo, para não dizer repulsivo, por outro motivo: Quem pode falar de direitos humanos? Por acaso você tem acompanhado a atitude da Alemanha e da França em relação à Grécia?

Mudemos ligeiramente nosso foco; mas este deslocamento nos servirá para entender até que ponto estes campeões dos direitos humanos se levam a sério em suas próprias declarações.

Para abordar o assunto mais um vez cito o jornal acima de qualquer suspeita, desta vez cito o Corriere della Sera de 13de fevereiro de 2012. O artigo é de Marco Nesse. Leio apenas o inicio e não tudo.

“Os gregos passam fome mas tem os arsenais militares repletos. E seguem comprando armas. Este ano queimaram 3% do PIB (Produto Interno Bruto) em gastos militares. Somente os EUA, proporcionalmente, pode se permitir algo semelhante. O que é que empurra Atenas a fazer um gasto desmedido? Medo dos turcos? Não, é a voracidade de Merkel e Sarkozy. Os dois dirigentes estão há meses colocando o governo grego entre a espada e a parede: se querem ajuda financeira, se querem permanecer no euro, tem que comprar nossos tanques e nossas maravilhosas embarcações de guerra. (…) No verão passado, revelou Wall Street Journal, Berlim e Paris impuseram a compra de armamento como condição para aprovar o plano de resgate da Grécia”.

Desta forma temos dois países, França e Alemanha, porém me detenho especialmente na França porque como sabem, este país com Sarkozy desempenha um papel napoleônico em defesa dos direitos humanos; e se coloca como um aliado dos gregos porem os submete à fome para obrigar que comprem armamento francês e empobrecer ainda mais o povo grego já exausto, o que não fariam Merkel e Sarkozy com seus inimigos?

Se este é o tratamento que dispensam a um país tão elogiado, como a Grécia, o berço da civilização ocidental, com que cinismo tratarão – Merkel ,Sarkozy e Obama – aos que consideram bárbaros e isolados da civilização ocidental?

O ressurgir do colonialismo

Devemos prestar muita atenção no que está ocorrendo, há um ressurgir do colonialismo e para entender temos que manter presente este aspecto fundamental:

Durante a guerra contra a Líbia, o ocidente foi capaz de matar milhares e milhares de líbios sem sofrer nenhuma baixa. Isto nos retroage as páginas mais negras da história do colonialismo. Relembremos a Guerra do Ópio, a Primeira Guerra do Ópio de 1840, quando a frota inglesa se aproximou da costa da China e foi capaz de bombardeá-la. E aí está uma página clássica do colonialismo: graças a sua superioridade tecnológica, Grã-Bretanha, a potência colonial hegemônica da época, impôs à China a compra do ópio.

Tampouco neste caso faltou um autor ilustre, um filósofo ilustre, John Stuart Mill que falava da Guerra do Ópio como de uma guerra da liberdade, uma guerra pela liberdade do comércio do ópio, a favor dizia, do comprador antes dos vendedores.

A falsificação legitimada

Mas esta desproporção de forças não se dá unicamente no plano militar, também no plano midiático, pois hoje, através da internet, através das novas tecnologias, o ocidente pode envenenar a opinião pública sem que exista uma capacidade real de resistência. Por outro lado, quis fazer uma breve reconstrução histórica antes de chegar a conclusão.

Se lembram de Timisoara, na Romênia? Não se trata de defender a Ceaucescu, não é isso, estou falando de técnicas utilizadas.

Disseram que estavam cometendo um genocídio na Romênia e esta campanha deflagrada contra o genocídio que cometiam foi o que possibilitou o golpe de força.

Para comentar o que ocorreu em Timisoara citarei outra vez uma fonte confiável. É um filósofo ilustre, interessante, que se chama Giorgio Agamben; não me atreveria a dizer que é progressista, mas sua análise sobre o ocorrido em Timisoara é muito interessante e sobretudo muito inteligente. Cito Agamben:

“Pela primeira vez na história da humanidade, alguns cadáveres recém- enterrados ou colocados nas mesas dos necrotérios, dos obituários, se desenterraram a toda pressa e martirizaram para simular diante das câmaras de televisão o genocídio que devia legitimar o novo regime. Aquilo que todo mundo via como a verdade verdadeira nas telas das TVs era “não-verdade” absoluta. E ainda que a falsificação fosse bastante evidente, o sistema mundial global dos meios de comunicação as autenticava como verdadeira, para que ficasse claro que o verdadeiro já não era mais que o movimento necessário do falso”.

Ele está falando da televisão de 1980, mas a de 2012 certamente é pior. Não se trata unicamente da Europa oriental. Às vezes a própria imprensa ocidental justifica estas falsificações vergonhosas; quero citar Corriere della Sera para que vejam a que extremos pode chegar o afã da falsificação e da manipulação.

O artigo é de Vincenzo Trione de julho de 2009. Havia no Irã manifestações contra Ahmadinejad:

“Há dias circula no Twitter uma imagem de procedência desconhecida (…). Diante de nós, uma fotografia de profundo valor simbólico: uma página de nosso presente. Uma mulher com um lenço negro que veste uma blusa verde e jeans: extremo oriente e extremo ocidente juntos. Está só, em pé. Tem o braço direito levantado e o punho cerrado. Em frente, imponente, num carro com teto solar emerge Mahmoud Ahmadinejad em atitude arrogante, inalterável, insensível. Atrás os guarda-costas. Impressiona o jogo dos gestos: a desesperada provocação da mulher; e o místico presidente iraniano”

Logo segue: “Se trata de uma fotomontagem”. Mas acrescenta o Corriere della Sera: “Uma fotomontagem que, sem dúvida, parece verossímil, pelo que se pretende como eficácia de idéias, crenças”. É a justificação e legitimação da falsificação. Também neste caso, mesmo em 2009, podemos transpô-la para 2012.

Chamamento

Chego a última parte de minha intervenção. Como sabem, faz algum tempo publiquei um chamamento contra a guerra no Irã e Síria que estavam tramando e seguem tramando. O texto apareceu parcialmente no Il Manifesto de 20 de janeiro de 2012. Mas junto deste chamamento haviam publicado outro, ou melhor, antes do nosso haviam publicado outro. “Não a repressão no Egito e Síria”, assinado por personalidades ilustres que merecem todo o nosso respeito como Luisa Morgantini, Vittorio Agnoletto etc

O que dizia a convocação? Vejamos:

“Nas praças do Egito e da Síria, como em outros países árabes, milhares de pessoas se manifestam para acabar com regimes autoritários e ilegítimos (…) Na Síria, o regime de Bashar El Assad reprime com violência há meses as manifestações da oposição. Milhares de mortos documentados por testemunhas independentes, milhares de prisões de dissidentes”.

A violência não somente parece horrível, mas que está por todo lugar. E diziam os signatários: não, não queremos uma intervenção militar, basta uma investigação da ONU. Mas na realidade, este chamamento reforçava o clima de guerra contra a Síria. Por outro lado, alguém poderia dizer: Por que não pedem, por exemplo, a missão da ONU em Washington? Porque é evidente que os drone estão semeando a morte, perpetrando diariamente execuções extrajudiciais.

Mas quis dar ênfase, sobretudo a ingenuidade. Disse este chamamento que os milhares de mortos pela repressão de Bashar Al Assad se conhecem graças a “documentação de testemunhas independentes”. Não dizem quem são essas testemunhas independentes e isso, naturalmente desperta minha curiosidade. Me pergunto: onde terão ido buscar essas testemunhas independentes na Lua ou em Marte? Porque se foram buscar na Terra, me ocorrem algumas coisas.

Quem são essas testemunhas independentes? Na Itália temos um governo técnico que, evidentemente, não faz política, é totalmente independente da política. Temos um ministro de Exteriores tão independente da política que nem sequer me recordo de como se chama. Mas me lembro de seus desatinos: comprar armas sofisticadas dos EUA numa situação desastrosa para o povo italiano e apoiou várias iniciativas de guerra que apareceram. São essas as testemunhas independentes?

As testemunhas independentes são chamadas organizações não governamentais? Porque se são as ONGs, então sugiro, e esta sim é a conclusão, sugiro que Morgantini e Agnoletto que leiam um livro. Tenho um aqui, eu trouxe. O autor, Niall Ferguson, é um ilustre historiador que publica com freqüência no Corriere della Sera e escreve regularmente em Wall Street Journal, sendo assim também é um historiador confiável.

Escreveu um livro Coloso: auge y decadência del império americano (ele lamenta essa decadência), e já na introdução, quando fala do império (norte) americano, perguntou:

Como se sustenta o império? Se sustenta com a força militar, mas também se sustenta com suas empresas e… com as Organizações Não Governamentais.

Foi o que ele disse quem quiser que leia na página 11. Mas vamos ver: se ninguém leva a sério as agências de rating moral, as agências que deveriam certificar a solvência econômica deste ou daquele país, desta ou daquela indústria, quem levará a sério as agências de rating moral, de Washigton quem respeita mais os direitos humanos e quem respeita menos?

Termino dizendo que é hora de desenvolvermos a luta contra a guerra e que esta luta contra a guerra somente poderá ser eficaz se o movimento pela paz, se a esquerda, se todos os democratas considerarem um fator fundamental:

 É preciso um suplemento de consciência e vigilância crítica contra a indústria da manipulação e da falsificação que é um aspecto central da máquina de guerra do imperialismo estadunidense e ocidental

Traducción do italiano para o espanhol: Juan Vivanco.

Tradução livre para o português MidiaCrucis

Fuente: http://domenicolosurdo.blogspot.com/2012/03/lintervento-di-domenico-losurdo-al.html

Sobre midiacrucis

Rompendo o apartheid-midiático. Buscando informações que o PIG omite, distorce, oculta...desinforma.
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