U.S. Deutsch Bank e outras aventuras edificantes (2)


–>1ª parte * Continuação da edição anterior
Há algumas lendas – into é, mentiras – sobre a eclosão da crise dos países imperialistas. Uma das mais repetidas, ecoando a mídia dos EUA, é que sua origem esteve na irresponsabilidade (ou, quem sabe, generosidade) dos bancos, que emprestaram a quem não tinha condições de pagar.

CARLOS LOPES

As falcatruas de Lippman e do Deutsch Bank em Wall Street, que vimos na primeira parte deste artigo, foram assunto de Lewis em livro anterior a “Bumerangue” (Michael Lewis, “The Big Short: Inside the Doomsday Machine”, W.W. Norton, NY/London, 2010).

No entanto, Lewis é incapaz de tirar uma conclusão do fato de que, com uma exceção, nenhum banco oficialmente estrangeiro agiu com tanta desenvoltura em Wall Street (a exceção, com sede na Suíça, é o UBS, a maior lavanderia de dinheiro proveniente da Ásia e um dos seis manipuladores mundiais do “interbancário”, isto é, dos empréstimos para que os bancos fechem diariamente as suas contas – os outros são: JP Morgan Chase, Citigroup, Deutsch Bank, Royal Bank of Scotland e HSBC).

Foi tanta a desinibição do Deutsch que até mesmo recebeu uma boa parte do dinheiro público que o governo dos EUA enfiou nos bancos.

Mas com raro cinismo – até entre os bancos.

Em outubro de 2008, o chefão (CEO) do Deutsch Bank, Josef Ackermann, reuniu a imprensa para uma declaração: “Eu ficaria envergonhado se nós tomássemos dinheiro do Estado durante esta crise”.

No mesmo mês em que Ackermann fez sua declaração “ética”, descobriu-se que a AIG, a falida maior seguradora norte-americana, repassara US$ 11,8 bilhões ao Deutsch, que recebera do governo dos EUA (cf. Deutsche Welle, 20/10/2008).

Em março de 2009, soube-se que o Deutsch fora o segundo maior tomador de empréstimos de uma linha de baixíssimos juros do FED, o banco central dos EUA, para os bancos privados (cf. Business Week, 15/03/2009).

Em abril de 2011, soube-se que o Deutsch foi o maior usuário de outro programa do FED, o “Term Asset-Backed Securities Lending Facility”, livrando-se de US$ 290 bilhões em papéis podres (cf. Bloomberg, 01/04/2011).

Não são empréstimos “normais”, quando um banco toma dinheiro do FED a juros negativos e empresta ao próprio governo dos EUA a uma taxa de 3,5% positivos. Nem quando as garantias oferecidas pelo tomador do empréstimo são os títulos podres de sua própria lavra.

Ao leitor, pode parecer incrível tanto empenho do FED e do governo dos EUA por um banco alemão. Com razão: pode parecer incrível porque é incrível.

EUA

Há algumas lendas – isto é, mentiras – sobre a eclosão da crise dos países imperialistas. Uma das mais repetidas, ecoando a mídia dos EUA, é que sua origem esteve na irresponsabilidade (ou, quem sabe, generosidade) dos bancos, que emprestaram a quem não tinha condições de pagar.

Trata-se de uma excelente forma de transferir a responsabilidade, em última instância, para o povo. Já vimos o que vale tal concepção, quando os bancos apostavam contra os seus próprios títulos, que vendiam aos incautos.

Além disso, quanto à economia norte-americana, o inchamento do crédito foi uma consequência do arrocho salarial, num país em que o PIB é composto em 70% pelo consumo pessoal (a participação do consumo pessoal no PIB aumentou 18% desde a década de 60).

Em bom português: devido ao achatamento salarial, os americanos se endividaram até os últimos fios de cabelo.

O problema mais de fundo são as minguantes taxas de investimento da economia norte-americana (cf. Dirk van Dijk, “The Changing Composition of GDP”, 2009; e World Bank, “Gross capital formation (% of GDP) 1981-2010”).

Alguns babaquaras chamaram isso de “pós-industrialismo”, como se a economia dos EUA houvesse atingido um nível futurístico, onde a economia dispensaria a indústria dentro do país – e, portanto, também o investimento em máquinas, equipamentos e edificações industriais…

Outros, mais respeitáveis, falaram na desindustrialização como consequência do término do processo de industrialização. Como este foi completado, os serviços aumentariam sua participação em relação à indústria.

Ainda que isso exista, nos parece que não é essencial na situação dos EUA, mesmo sem discutir o que é uma industrialização “completa” – não basta, evidentemente, dizer que é aquela em que todos os departamentos da produção (bens de capital e bens de consumo) já foram desenvolvidos.

Quanto ao “pós-industrialismo”, é apenas uma confusão entre o desenvolvimento das forças produtivas e sua obstrução, seu entravamento, pelas relações de produção do capitalismo monopolista. Só admitindo as últimas, tal como estão, como as únicas “possíveis” – ideais e eternas – pode-se falar, ainda que seja falso, em superação da economia industrial. Ideologicamente, toma-se o que é entravamento das forças produtivas como se fosse desenvolvimento delas.

Nos EUA, sob essas relações de produção, não somente o desenvolvimento da indústriadentro do país foi entravado, como regrediu – ainda que nem assim, como é óbvio, as forças produtivas deixaram de se desenvolver em algum grau.

Porém, o que houve foi, sobretudo, a transferência de unidades produtivas das multinacionais para outros países, com o objetivo, principalmente, de explorar mão de obra relativamente mais barata. Com isso – que os apologistas da “globalização” incensaram ad nauseam – abriu-se o caminho para a terra arrasada e as cidades-fantasmas que Michael Moore expôs em “Capitalism: a love story”.

Houve também uma decadência acentuada de monopólios, absorvidos por outros ou desaparecidos em bancarrota – um processo de monopolização da monopolização, nítido quando comparamos a famosa lista das 500 maiores empresas da “Fortune” com razoável intervalo de tempo (a comparação da lista de 1955 com a de 2009 foi base para o artigo “Algumas questões sobre a história econômica dos Estados Unidos”, v. HP 13/01/2010 e HP 20/01/2010).

Evidentemente, arrocho salarial e aumento do consumo são incompatíveis. Tentou-se eludir o problema através do crédito – o que cevou o maior processo especulativo da história. As pessoas que recorriam ao crédito não eram caloteiras. Apenas, estavam sufocadas por um arrocho monstruoso em seus rendimentos – daí tantas hipotecas, não somente de casas, mas de qualquer coisa que pudesse ser hipotecada. Em cima disso, instalou-se a pirâmide dos “derivativos”.

A BANCA

A teoria “cultural” de Lewis sobre a fixação anal ou excrementícia dos alemães, ainda que seja uma generalização, não é desprovida de interesse em relação a um país que, desde Bismarck, é conhecido por um comportamento obsessivo-compulsivo. Que esse comportamento tenha sido mais imposto do que desenvolvido naturalmente, é coisa que não lhe passa pela cabeça, apesar de ser óbvio para nós – basta ver alguns descendentes de alemães no Brasil, ou lembrar dos alemães da época de Goethe ou Marx, para concluir que não se trata de algo intrínseco.

Mais importante é outra observação “cultural” de Lewis:

… no Planeta Dinheiro, mesmo dentro da Alemanha, o inglês é a língua oficial. É a língua usada em todas as reuniões do Banco Central Europeu, por exemplo, embora o banco fique na Alemanha e o único país do banco cuja língua nativa é o inglês seja a Irlanda” (op. cit., pág. 158).

Na verdade, nem a Irlanda – que tem um idioma celta como língua nativa.

Em todo o livro, só há um momento em que Lewis parece vislumbrar algo de mais profundo nos fatos que cita. Como é algo realmente importante, transcreveremos quase na íntegra:

O sistema financeiro global (…) tornou-se (…) uma ferramenta para maximizar o número de encontros entre os fortes e os fracos, de modo que uns possam explorar os outros. Operadores espertíssimos dentro dos bancos de investimentos de Wall Street inventam apostas profundamente injustas e diabolicamente complicadas e depois enviam suas equipes de vendas mundo afora em busca de algum idiota que aceite ficar do outro lado daquelas apostas. Durante os anos de boom, um número desproporcional daqueles idiotas estava na Alemanha.

Quando o Morgan Stanley criou swaps de crédito complicadíssimos que com certeza dariam prejuízo, de modo que seus próprios operadores pudessem apostar contra eles, o comprador era alemão. Quando o Goldman Sachs ajudou o gerente de hedge fund John Paulson, de Nova York, a criar um título contra o qual apostar (um título que Paulson esperava que desse prejuízo), o comprador do outro lado era um banco alemão chamado IKB. O IKB, junto com outro idiota famoso na mesa de pôquer de Wall Street chamado WestLB, estava sediado em Düsseldorf – razão pela qual, quando você perguntava a um corretor de títulos hipotecários subprime de Wall Street, em torno de junho de 2007, quem ainda estava comprando seu lixo, ele podia responder, simplesmente: ‘Alemães idiotas em Düsseldorf’ ” (págs. 156/157).

Não foram apenas os alemães – os bancos franceses e japoneses, para não falar na arraia miúda da UE, não ficaram muito atrás. Mas é verdade que, fora dos EUA, foram sobretudo os alemães.

Em países onde existe um sistema bancário público – caso do Brasil – esse processo de dominação da banca pelos grandes bancos norte-americanos foi, em parte, evitado. O Estado continua sendo a barreira possível ao jugo dos monopólios financeiros porque, necessariamente, representa em alguma medida, se o leitor nos permite o pleonasmo, o conjunto da coletividade. Um caso exemplar é o da Islândia, onde até 2002 os bancos eram estatais – até que um primeiro-ministro imbecil com mentores imbecis (Thatcher, Reagan e a gang neoliberal), privatizou-os, com notórias consequências.

É verdade que o papel dos bancos públicos varia com o governo: na Alemanha, sucessivos governos tornaram os próprios bancos estatais, ou semi-estatais, revendedores dos bancos norte-americanos.

Ou – agora pelo lado do ridículo – basta ler a transcrição, no livro de Lewis, da asserção do presidente da Islândia, garantindo que a “prosperidade” do país (isto é, a especulação e a tomada das fontes de energia pela Alcoa) era devida, entre outras coisas, ao “nosso mercado interno” (pág. 41). A Islândia tem 300 mil habitantes, população numericamente comparável à de Caruaru, com uma produção autóctone mais restrita que a cidade pernambucana – resume-se à pesca do bacalhau.

TAXAS

Lewis inicia seu livro por uma questão importante: quem está ganhando com a crise. Pois é evidente que nem todo mundo está perdendo.

Infelizmente, como resposta, ele só consegue apontar para um pistoleiro financeiro do Texas. Escapa, completamente, que aquilo que estão fazendo esses pistoleiros – a saber: “… ele acabara de comprar seus primeiros swaps de crédito dos países que, segundo ele e sua equipe de analistas, apresentavam as menores probabilidades de conseguir saldar suas dívidas: Grécia, Irlanda, Itália, Suíça, Portugal e Espanha. (…) Dois anos e meio depois (…) os swaps de crédito da Grécia haviam subido de 11 pontos base para 2.300” (págs. 14/16) – é, em muito maior medida, e de forma muito mais sinistra, o que estão fazendo os grandes bancos, a começar, naturalmente, pelos norte-americanos. Além do que, esses pistoleiros não existiriam sem os grandes bancos, pois são apenas algumas rêmoras – peixes que comem os restos de comida dos tubarões.

Porém, voltemos ao período anterior à crise. Os “derivativos” podem ser – e são – uma ficção. Bancos, no entanto, só fabricam ficções quando elas rendem dinheiro. O que havia, em um pequeno país como a Islândia, para atrair os bancos dos EUA e seus intermediários europeus?

A resposta é juros – e só não é óbvia devido à confusão, bem cultivada pela mídia, sobre as operações do mal chamado “mercado financeiro”. Abaixo, juntamos duas citações e retiramos os trechos em que Lewis atribui culpa aos islandeses pela ganância dos bancos estrangeiros. Depois dessa cirurgia, o trecho é esclarecedor:

Com a taxa de juros local em 15,5% e a coroa se valorizando (…) ganhavam uma fortuna no câmbio, já que a coroa não parava de subir (…) atraídos pelos estonteantes 14% de rendimentos anuais…” (págs. 27 e 41).

O mesmo em relação à Grécia: “… as taxas de juros gregas eram 10% mais altas que as alemãs” (pág. 74).

Note o leitor que estamos nos referindo ao período anterior à crise – não ao atual, em que as taxas de juros só não chegaram na órbita de Plutão porque as do Banco Central do Brasil ocuparam todas as órbitas.

Sobre a Irlanda, onde “desde o ano 2000, as exportações haviam estagnado” (pág. 101), nota Lewis que o “fluxo incessante de dinheiro estrangeiro” fabricou uma imensa bolha imobiliária num país onde 87% das pessoas (o maior índice do mundo) moram em casa própria – e, acrescentamos nós, onde os prédios comerciais que ficaram inacabados não fizeram falta.

Por que essa maluquice? Fundamentalmente para se apropriar dos juros que os irlandeses, devido a um governo terrivelmente submisso, pagavam, de tal forma que “em 1997, os bancos irlandeses eram 100% financiados por depósitos irlandeses. Em 2005, estavam obtendo a maior parte do seu dinheiro do exterior” (págs. 104/105).

Sobre o controle dos bancos norte-americanos, a Grécia e a Irlanda – países da UE e da “zona do euro” – são casos exemplares.

ACONSELHAMENTO

Quem geria – perdão, gerenciava – as finanças do governo grego antes da crise era o Goldman Sachs, localizado em Wall Street, Nova Iorque (era assim a opção “pró-europeia” de Karamanlis).

Atualmente, o primeiro-ministro imposto aos gregos, sem eleição e outras aporrinhações democráticas, é um ex-funcionário do FED (depois vice-presidente do BCE, apesar – ou por causa – de ser um auxiliar de David Rockefeller na sua “Comissão Trilateral”). Academicamente, é conhecido como um dos inventores, durante sua longa residência nos EUA, do suspicaz conceito (?) de “taxa natural de desemprego” (ou “taxa de desemprego não-inflacionária” – e antes que algum neoliberal diga que as duas não são a mesma coisa, esclarecemos que são a mesma coisa: uma fraude para eternizar o desemprego).

Quanto à Irlanda, quem “aconselhava” o governo era o Merril Lynch, que, uma semana após a falência do Lehman Brothers, emitiu um relatório, garantindo que “todos os bancos irlandeses são rentáveis e estão bem capitalizados (…) e são fundamentalmente sólidos”.

Por esse relatório, o governo irlandês pagou 7,4 milhões de euros – US$ 11 milhões ao câmbio da época – ao Merril Lynch (cf. Irish Independent, 05/11/2009, “Failed bank got all clear in report that cost State € 7.4m”).

Por coincidência (o que mais poderia ser?), o Merril Lynch era também “o principal subscritor dos títulos do Anglo Irish [Bank] e o corretor corporativo do AIB [Allied Irish Banks]: ganhara rios de dinheiro com o crescimento dos bancos irlandeses” (Lewis, pág. 120).

Com isso, o Merril Lynch, um monumental (pelo tamanho da sede) antro de vigaristas, mandava em dois dos três maiores bancos irlandeses – e no governo, que seguiu seus conselhos mesmo depois que o Merril Lynch, falido, tornou-se uma divisão do Bank of America. Aliás, mais ainda, depois.

Somente no Anglo Irish Bank, depois da crise, o governo irlandês, segundo suas próprias contas, gastou “pelo menos” 29,3 bilhões de euros (cf. Irish Independent, 09/09/2010, “Anglo cost to be at least € 29.3bn”).

Essa quantia equivale a 18,3% do PIB irlandês de 2009 (cf. Central Statistics Office Ireland, “Statistical Yearbook of Ireland 2010 Edition”, cap. 8, “Economy”, pág. 130).

No entanto, esse banco não tinha grande importância para o conjunto da economia do país. Nem tinha muitos depositantes – como diz Lewis, “tinha apenas seis agências, nenhum caixa eletrônico e nenhum relacionamento orgânico com empresas irlandesas, a não ser as de construção” (pág. 123).

Mas o motivo desse gasto estúpido de dinheiro do povo não foram, evidentemente, os depositantes irlandeses, mas os “detentores de títulos: bancos alemães, bancos franceses, fundos de investimentos alemães, Goldman Sachs” – e Lewis poderia, nessa lista divulgada pelo governo, ter acrescentado o Bank of America.

Não havia respaldo legal para ressarcir quem especulava com títulos – mas, disse o ministro das Finanças, Brian Lenihan Jr., “não há como este país, cujos bancos são tão dependentes dos investidores internacionais, deixar unilateralmente de cumprir suas obrigações com os grandes detentores de títulos contra a vontade do BCE”.

Se alguém perguntou a Lenihan Jr. – que morreu logo depois – por que seria uma obrigação dos irlandeses garantir, com seu dinheiro, risco zero para os especuladores, não sabemos.

*Continua na próxima edição

Fonte: HoradoPovo

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