U.S. Deutsch Bank e outras aventuras edificantes (1)


Vários autores já disseram, e demonstraram, que a chamada “globalização” era, meramente, globalização financeira. Resta, talvez, dizer que esse berro do neoliberalismo significou o domínio dos bancos de outros países pelos grandes bancos norte-americanos.

CARLOS LOPES

http://www.db.com/medien/en/content/photos.htmUm velho amigo – hoje um conhecido psicanalista – tinha uma especial birra contra “livros de jornalista”, categoria em que incluía desde John Reed até as obras de ficção de Hemingway (mesmo – aliás, sobretudo – a melhor parte: os contos). Jornalistas, dizia ele, não vão além da superfície dos fatos – e, ainda por cima, apresentam-na como se fosse a sua essência.

Existe alguma injustiça nessa apreciação, pois há muitas exceções, mas foi inevitável pensar no que dizia esse amigo ao ler “Bumerangue”, o livro do jornalista norte-americano Michael Lewis sobre a crise na Islândia, Grécia, Irlanda, Alemanha e nos municípios dos EUA. Impossível evitar a lembrança, ao ler: “a sociedade mais rica que o mundo já viu alcançou esse status concebendo meios cada vez melhores de dar às pessoas o que elas querem” (Lewis, “Bumerangue”, trad. Ivo Korytowski, Sextante, 2011, págs. 203/204).

Pois essa frase, leitores, é referente aos EUA, onde, antes da atual crise, havia, oficialmente, 45 milhões de pessoas sem direito a qualquer assistência médica, exceto a reservada aos indigentes – reconhecidamente, uma assistência médica indigente. Um país em que, desde 1981, houve um arrocho salarial tão achatador que é difícil medi-lo, até porque as estatísticas sobre salários, desde Reagan, sofreram estranhas alterações de critérios – e, mesmo assim, os números não conseguiram deixar de registrar o arrocho (o que não é nenhuma novidade. Conferir, por exemplo, o livro, já antigo, de um professor de economia norte-americano: David M. Gordon, “Fat and Mean: The Corporate Squeeze of Working Americans and the Myth of Managerial ‘Downsizing’”, Free Press, 1996 – esse livro não foi atualizado, pois seu autor faleceu logo após a publicação. Mas não é uma questão em disputa que o arrocho salarial aumentou nos anos posteriores a 1996).

RATING

Se Lewis preenche seu livro com preconceitos, alguns reacionaríssimos – é nauseante o seu medo de qualquer manifestação popular -, os fatos que menciona, no entanto, são muito interessantes. Inclusive sobre os EUA, que não é, neste livro, o seu assunto principal.

O leitor, provavelmente, lembra-se quando, em agosto do ano passado, a Standard and Poor’s (S&P), uma dessas “agências” vigaristas de classificação (“ratings”), rebaixou sua nota dos títulos do governo norte-americano. Foi uma torrente de lamentações na mídia. Até o sr. Mantega, que desde 2006 incensava o “investment grade” dessas agências, em especial o da S&P, saiu em defesa dos papéis norte-americanos. Também, pudera: 65% das reservas do Brasil estavam (e estão) aplicadas em papéis do governo dos EUA, exatamente com a fundamentação de que esses papéis tinham classificação “Aaa” da S&P e outras agências norte-americanas de rating (cf. BCB, “Relatório de Gestão das Reservas Internacionais”, v. 3, Brasília, 2011, pág. 21).

Parecia uma tragédia para o governo dos EUA. No entanto, foi uma tragédia para os países que têm uma equipe econômica composta por bobos e/ou serviçais. O sr. Mantega tinha razões para se queixar, mas não as que ele emitiu publicamente:

As consequências da afirmação de uma grande agência de classificação de crédito americana de que as chances de o governo americano saldar suas dívidas haviam diminuído foram reduzir o custo dos empréstimos do governo americano e elevar esse custo para todos os demais” (“Bumerangue”, pág. 173, grifo nosso).

Há outra questão sobre os EUA – aliás, mais de uma – que deixaremos para o próximo artigo. Primeiro, algumas considerações sobre o que Lewis ignora em seu livro.

SUBSIDIÁRIAS

Vários autores já disseram, e demonstraram, que a chamada “globalização” era, meramente, globalização financeira.

Resta, talvez, dizer que esse berro do neoliberalismo significou o domínio dos bancos de outros países pelos grandes bancos norte-americanos.

Isso explica, por exemplo, o artigo 63 do “Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia”, também conhecido como “Tratado de Lisboa”, que substituiu, sem consulta popular, a “constituição europeia” derrotada nas urnas em vários países:

Artigo 63º: 1) … são proibidas todas as restrições aos movimentos de capitais entre Estados-Membros e entre Estados-Membros e países terceiros. 2) … são proibidas todas as restrições aos pagamentos entre Estados-Membros e entre Estados-Membros e países terceiros” (cf. Jornal Oficial da União Europeia/PT, 30/03/2010, pág. C 83/71, “Versão Consolidada do Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia”, grifos nossos).

O texto é explícito: os países da UE, inclusive os da “zona do euro”, abriram mão oficialmente de se defender da especulação financeira externa, isto é, norte-americana. Na verdade, já o tinham feito na prática, a começar pelos países da UE que não adotaram o euro (Inglaterra, Suécia, Polônia, Hungria, Romênia, Dinamarca, Bulgária, República Checa, Lituânia e Letônia).

Mas isso foi uma consequência de um fato financeiro: os bancos europeus já haviam se tornado, na prática, subsidiárias dos grandes bancos norte-americanos (o Tratado de Lisboa somente foi assinado em dezembro de 2007 – um ano depois, a crise dos EUA levaria a Europa de roldão).

Em suma, os imperialismos alemão, francês e de outros países europeus tornaram-se, por via financeira (facilitada ou permitida pela ocupação militar, que já dura quase 70 anos, da Alemanha, assim como do Japão, pelos EUA), uma espécie de “imperialismo dependente” – ou, se o leitor quiser, um “subimperialismo” ou “imperialismo subsidiário” – que existe dentro dos limites definidos pelo imperialismo norte-americano, e que se presta a ser capanga de seu senhor, através da OTAN. Bem entendido, não pretendemos inventar um novo conceito: apenas descrever um fato.

O exemplo mais evidente é, exatamente, o dos bancos alemães. Como observa Lewis, só existem dois grandes bancos privados alemães: o Deutsch Bank e o Commerzbank – que absorveu o terceiro, o Dresdner. Os outros são estatais ou são cooperativas relativamente pequenas de crédito.

Tanto o Deutsch quanto o Commerzbank afundaram no dilúvio de “derivativos” que compraram dos bancos norte-americanos. Agiram – e agem – como intermediários dos bancos dos EUA, assim como os bancos islandeses, irlandeses, etc., etc. – com a diferença de que a Alemanha não é um país periférico da UE, tal como a Irlanda ou Portugal, mas o principal país da UE e da “zona do euro”.

Quando denominamos os bancos europeus de “subsidiárias” dos bancos norte-americanos não estamos, necessariamente, nos referindo à sua propriedade. No entanto, também essa questão, a da propriedade – isto é, a nacionalidade – em vários casos é bastante duvidosa.

Vejamos o maior de todos, o Deutsch Bank, um banco tão grande que, em depósitos, só há um outro na Europa que se lhe compare, o Credit Suisse, com matriz em Zurique, fora da UE e da “zona do euro”.

Aparentemente nada há de mais característico da burguesia financeira e monopolista alemã do que o Deutsch Bank.

No entanto, oficialmente, 53% dos acionistas do Deutsch são estrangeiros, isto é, não-alemães. Hoje, também oficialmente, 13% deles (eram 16% em 2009) são norte-americanos. O que não inclui a propriedade norte-americana através de filiais de bancos norte-americanos na Alemanha e demais países da Europa, ou em outras partes do mundo, nem aquela sob controle de bancos europeus que, na verdade, são controlados pelos bancos norte-americanos. Notemos que 75% das ações do Deutsch pertence a outros bancos. E esses são números retirados do último relatório anual do banco –, portanto, merecem estar sob suspeita.

INVESTIGAÇÃO

O Deutsch, no período anterior à crise, não agiu apenas como intermediário dos bancos norte-americanos na Europa – como foi o caso de alguns bancos franceses (especialmente o BNP Paribas e o Société Générale; a propósito, a França só tem – se é que tem – mais um grande banco privado, o Crédit Lyonnais; não há setor mais monopolizado, onde o mercado tenha sido mais banido ou tão manietado, quanto o chamado “mercado financeiro”).

O fato é que o Deutsch agiu, em Wall Street, e não apenas na Europa, como um banco norte-americano em todo o período imediatamente anterior à crise – de 2004 até a quebra do Lehman Brothers, o Deutsch Bank lançou, em Wall Street, US$ 32 bilhões em derivativos sobre as hoje notórias “hipotecas sub-primes” dos EUA. E essa magnitude foi o que se conseguiu comprovar na investigação do Senado dos EUA sobre a crise, chefiada pelos senadores Carl Levin (democrata/Michigan) e Tom Coburn (republicano/Oklahoma).

O relatório dessa investigação de dois anos (“Wall Street and the Financial Crisis: Anatomy of a Financial Collapse”) foi abafado pela mídia. E não foi, certamente, devido à sua extensão de 5.900 páginas – a versão sem os documentos citados tem 639 páginas -, pois o senador Levin tomou a providência de sintetizá-lo em seu site. Algumas partes dos depoimentos no Subcomitê Permanente de Investigações do Senado, que Levin preside, foram reproduzidas no documentário “Inside Job”.

PAPÉIS

Um dos trechos mais divertidos do livro de Lewis é o relato de um empresário irlandês sobre um banqueiro que se “aborreceu” com ele quando tentou quitar uma dívida. Não é para menos: o que é um banco sem devedores? Se todas as dívidas fossem quitadas, seria uma catástrofe para os bancos, por várias razões. Hoje em dia, a principal é que os papéis especulativos, os “derivativos”, são lançados em cima de dívidas – mais exatamente, são “derivados” de papéis que são títulos de dívida.

Esses papéis de papéis são uma invenção do maior banco dos EUA – o JP Morgan, hoje JP Morgan Chase, depois que os Rockefellers assumiram formalmente o seu controle – em 1994. Uma das coisas mais hilariantes, depois disso, foi a tentativa de alguns “historiadores econômicos” de remontar a origem desses papéis ao Japão feudal do século XVII, e, até, aos primórdios do surgimento do homem sobre a Terra. Mais interessante é a narrativa de uma jornalista inglesa, aliás, editora do “Financial Times”: Gillian Tett, “Fool’s Gold – How the Bold Dream of a Small Tribe at J.P. Morgan Was Corrupted by Wall Street Greed and Unleashed a Catastrophe”, Free Press, 2009 (o livro pretende ser uma defesa do J.P. Morgan – mas, com uma defesa dessas, cheia de episódios hediondos, melhor seria entregar os inventores dos “derivativos” logo ao carrasco).

O “derivativo” mais famoso é um papel denominado “credit default swap” (CDS). O que se chama “swap” é uma operação em que um papel substitui outro, com indexador diferente. Simplificadamente: um especulador tem um papel indexado pelo câmbio e, por exemplo, troca, com outro especulador, esse título por um indexado, digamos, pela taxa de juros do Banco Central. Os dois especuladores estão, portanto, apostando em quem (ou qual título) terá o maior rendimento num determinado prazo – quem perder pagará ao outro a diferença. Nada disso se distingue de um cassino, exceto pela complicação do “mercado financeiro”, imprescindível para enganar os trouxas, e pelo fato de que nos cassinos é preciso ter dinheiro verdadeiro para apostar – ou o sujeito não vai adquirir as fichas com que são efetivadas as apostas.

No cassino financeiro, não. Vejamos o “credit default swap” (CDS).

“Credit default” significa inadimplência – uma dívida em que houve “default” é uma dívida que não foi paga. O CDS, portanto, deveria ser uma espécie de seguro em caso de inadimplência do outro título – que, por sua vez, é baseado em outros papéis, por exemplo, hipotecas sobre casas.

Mas, uma empresa de seguros somente pode (ou poderia, pois até isso, hoje em dia, está bastante avacalhado) segurar alguma coisa se tiver cobertura – isto é, se possuir dinheiro, ou um ativo real conversível em dinheiro, que permita, em caso de necessidade, pagar o seguro.

Como frisa Lewis, a diferença do CDS em relação a um seguro “normal” é que ele não tem cobertura – é apenas um papel, supostamente lastreado em hipotéticos ganhos futuros (isto é, ganhos que não existem) com a especulação, mas, na verdade, um papel que existe para se especular sem que haja qualquer ativo real, dinheiro ou propriedades, de valor comparável – exatamente como o preço das casas nos EUA não tinha (e não tem) qualquer relação com o preço dos “derivativos” lançados em cima de suas hipotecas.

Certamente, isso é apenas uma “pirâmide” (ou, como chamam os norte-americanos, um “esquema Ponzi”, nome derivado de um famoso vigarista, Charles Ponzi). Mas é uma pirâmide de um tamanho que nenhum faraó sonhou – a última estimativa do BIS, o chamado “banco central dos bancos centrais”, correspondente a junho de 2011, é que havia US$ 708 trilhões em “derivativos” – ou seja, 11 vezes a produção de valor adicionado a mercadorias e serviços no mundo, isto é, o PIB mundial, estimado para 2011 em US$ 65 trilhões (cf. BIS, “OTC derivatives market activity in the first half of 2011”, 16/11/2011; The Economist, “In search of growth”, 25/05/2011).

Apesar de óbvio, é adequado lembrar que a falta de cobertura dos papéis não impede que o dinheiro ganho com eles possa se converter em propriedades, em ativos reais – desde palácios na Côte D’Azur até ex-estatais ou empresas privadas ex-brasileiras. Nesse sentido, a comparação entre o “valor” dos derivativos e o PIB mundial é imprecisa: este último se refere à produção de valor, e apenas durante um ano, enquanto que existe muito mais valor, já produzido, no mundo – isto é, já cristalizado em propriedades.

Depois dessa breve excursão pela vigarice globalizada (algo em que o indigitado Charles Ponzi jamais pensou – foi necessário o JP Morgan para concebê-la), voltemos ao Deutsch Bank no período anterior à crise.

MISTÉRIO

 O “gestor” de derivativos do Deutsch era um americano, Greg Lippman, tão bem sucedido que teve sua biografia financeira incluída num livro que parece humorismo, pela coleção de trambiqueiros que reúne: “The Greatest Trades of All Time: Top Traders Making Big Profits from the Crash of 1929 to Today”, de Vincent Veneziani.

Qual era o mistério do espetacular (e bilionário) sucesso de Lippman – e, portanto, do Deutsch Bank – em Wall Street?

Simplesmente, fabricar títulos podres, vendê-los a alguns patos, e apostar contra eles, através de outros títulos. A investigação do Senado dos EUA publicou várias mensagens e documentos internos, mostrando que Lippman e o Deutsche tinham, desde 2007, chegado à conclusão de que a bolha dos derivativos sobre hipotecas ia estourar, de que era, literalmente, um “esquema Ponzi”, de que os títulos que vendiam não passavam de “bosta” (literalmente: “crap”), etc. – e que o Deutsch estava apostando contra seus próprios títulos.

Evidentemente, não era apenas o Deutsch Bank que fazia isso. Todos os chamados “bancos de investimentos” – isto é, de especulação – de Wall Street (Bear Stearns, Lehman Brothers, Merril Lynch, Morgan Stanley, Goldman Sachs e Salomon Brothers) faziam isso, assim como o JP Morgan Chase, Citigroup, Bank of America, etc.

O jogo era ganhar com a crise. O que eles não parecem ter previsto foi o tamanho da crise que estavam provocando, que foi muito além dos derivativos sobre as hipotecas, porque havia causas muito mais profundas que a trapaça – ainda que colossal – em cima dessas hipotecas. A rigor, o estouro dos papéis lançados em cima do mercado imobiliário dos EUA foi um sintoma agudo de uma doença gravíssima, causada pelo engessamento da economia imperialista por meia dúzia de cartéis e monopólios financeiros.

Fonte: HoradoPovo

Sobre midiacrucis

Rompendo o apartheid-midiático. Buscando informações que o PIG omite, distorce, oculta...desinforma.
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