Veterano diplomata americano questiona a narrativa sobre a Síria


Por Sharmine Narwani, Al-Akhbar, Beirute

O problema da política dos EUA para o Oriente Médio é que ela atualmente só está operando no nível político: longe vão os dias em que havia especialistas pesos-pesados nos centros de decisão, capazes de considerar o contexto histórico, as relações sociais e de levar em conta essas nuances nas decisões políticas.

Hoje, o que se vê são grupos de interesses monolíticos, projetos comerciais, e o impacto sempre presente das eleições, em todas as decisões. Só se vê o quadro de curto prazo: muita tática e nenhuma estratégia, nessas abordagens de ou branco ou preto. Como campanha de publicidade de alta octanagem, todas as discussões se fazem em frases-slogans, em cenários e segundo narrativas inventadas.

Nas últimas semanas, a Síria não saiu das manchetes, em repetição ensurdecedora: o governo massacra a oposição em Homs; China e Rússia são os bandidos; um generoso Conselho de Segurança da ONU, que só pensa em salvar os sírios; o massacre de Hama, de 1982, ressuscitado; e uma embaixadora dos EUA que se declara “disgusted”, ante o atrevimento de outros embaixadores, que vetam, de pleno direito, desejos declarados dos EUA.

Mas se se baixa o volume da histeria, e se se devolve o debate à voz de observadores mais experientes e comedidos, logo se encontra uma narrativa mais consistente. No fim de semana, tive o privilégio de receber um e-mail que me fez lembrar o tempo em que havia especialistas mais bem qualificados no Departamento de Estado dos EUA, capazes de produzir relatos objetivos dos fatos em campo, o que, no mínimo, possibilitava que se tomassem decisões menos ensandecidas.
A mensagem, vem assinada por um ex-diplomata norte-americano que serviu na Síria, e que pede para não ter seu nome publicado. Publico aqui seu e-mail, para benefício dos leitores:

“Tenho graves restrições ao que se tem dito sobre intervenção militar na Síria. Todos, sobretudo a imprensa, parecem só contar com informações de ativistas da oposição. Como se sabe que ontem o regime sírio matou 260 pessoas em Homs? O número parece saído do que dizem figuras da oposição. Duvido muito desses números.

Servi durante três anos na Embaixada dos EUA em Damasco e sei o quanto é difícil separar fatos e boatos naquela sociedade política fechada. Cuidávamos de sempre verificar todos os boatos que circulavam sobre assassinatos, prisões de opositores políticos, etc., e nesse trabalho de verificação de boatos estava incluída a CIA, que recebia informação tão pouco confiável como nós todos. Hoje, temos lá um esqueleto de embaixada, que com certeza é mantida sob estrita vigilância, com pessoal reduzido, sem condições de andar pelas ruas e ver o que de fato está acontecendo. Estive em Damasco há dois anos, vi a carência de fontes com que a Embaixada trabalha, e não tive boa impressão do modo como compreendia-se, na Embaixada, a dinâmica do que acontecia na Síria. Posso dizer o mesmo, das conversas que tenho tido com funcionários do Departamento de Estado.

A imprensa, e em certa medida também o governo [Obama], personalizaram o conflito sírio, como se só se tratasse de Bashar Assad e sua família. Todos tem subestimado, praticamente sempre, a natureza sectária do conflito naquele país. De modo algum se trata só de Bashar Assad e família, que se agarram ao poder a qualquer custo: trata-se de todo o sistema alawita de controle do país, que inclui os militares, os serviços de segurança e o Partido Baath. Creio que os alawitas creem firmemente que, se perderem o poder, os sunitas os massacrarão. Essa é uma das razões pelas quais Hafez e seu irmão Rifaat foram tão impiedosos em Hama há trinta anos. E, no ocidente, todos esquecem, muito convenientemente, a campanha de assassinatos e suicidas-bombas comandada, três ou quatro anos antes de Hama, pela Fraternidade Muçulmana em todo o país. Testemunhei pessoalmente um desses ataques a bomba, do qual resultaram várias centenas de mortos. Por mais curta que seja a memória histórica do Departamento de Estado, da CIA e de outros órgãos do governo dos EUA, os sírios não esquecem facilmente.

Encontram-se poucas análises sérias sobre o conflito na Síria. Com exceção do que o jornalista Nir Rosen e o International Crisis Group têm publicado, a maioria dos relatos são superficiais e tendenciosos a favor da oposição ao regime sírio. Assim, não há base de informação a partir da qual propor políticas, sobretudo se Washington considera a possibilidade de algum tipo de intervenção militar. Seria como abrir uma caixa de Pandora dos conflitos sectários, que facilmente se espalhariam para o Líbano, Israel, as áreas curdas do Iraque e por toda a região.

Uma das ironias da situação atual, se comparada à situação de trinta anos passados, é o papel do Iraque. Naquele momento, tínhamos informação satisfatoriamente confiável de que Saddam Hussein fornecia armas e explosivos à Fraternidade Muçulmana e facilitava o contrabando desses itens através da fronteira Síria-Iraque. Hoje, o governo Maliki em Bagdá parece apoiar o regime de Assad. E há trinta anos, também tínhamos informação de que os líderes da Fraternidade Muçulmana contavam com a proteção do rei Hussein e dos sauditas, que lhes garantiam santuário na Jordânia e na Arábia Saudita.

Não me parece que os EUA saibamos como jogar nessa arena, assim como tampouco sabemos como jogar na arena do Afeganistão-Paquistão. A intervenção militar norte-americana, embora disfarçada como intervenção da OTAN, ou sob qualquer outro guarda-chuva, pode ter consequências graves e não previstas para os EUA, a Europa e a região. Os funcionários em Washington deveriam receber lições sobre a lei das consequências não previstas, marteladas na cabeça, todos os dias.

São pensamentos de um diplomata dos EUA, com experiência recente e direta na Síria. Por que não se ouvem avaliações assim sóbrias, da boca dos que mandam, em Washington? Parte da razão, é claro, é a super politização do processo de tomada de decisões, que há muito tempo foi sequestrado da mão dos especialistas e entregue no colo dos falcões linha-dura, de ideólogos, de candidatos e de jornalistas “marketeiros” especialistas em campanhas eleitorais.

Deve-se lembrar que muitos dos motivos pelos quais o governo dos EUA está focado na Síria derivam da fixação no Irã. Ao apoiar a ideia do Irã, de que é preciso pôr fim à hegemonia dos EUA e de Israel no Oriente Médio, a Síria pôs-se no centro das prioridades das políticas dos EUA.

David Sanger, do New York Times, escreveu, pouco depois de a Primavera Árabe ter devorado os primeiros dois ditadores, Zine El Abidine Ben Ali da Tunísia, e Hosni Mubarak do Egito:

“Cada decisão – da Líbia ao Iêmen, do Bahrain à Síria – está sendo examinada sob o prisma de como afetará o que era, até meados de janeiro, o projeto dominante na estratégia regional do governo Obama: como conter o progresso nuclear no Irã e acelerar ali as oportunidades de um levante bem sucedido.”

Os esforços para minar o governo de Bashar Assad estão há muito tempo entre os principais objetivos políticos do governo, desde bem antes de as revoltas populares começarem no Oriente Médio em geral, em 2011. WikiLeaks revelou uma verdadeira mina de informações sobre as intervenções dos EUA na Síria, inclusive o financiamento direto, dos EUA, a grupos de oposição [1].

Política suja e dificuldades geopolíticas à parte permanece, no coração dessa questão, um problema que é fundamental para que se proponham melhores políticas, em todos os casos: em que momento narrativas apenas oportunistas convertem-se em mentiras ativas, que geram políticas cada vez piores?

Um telegrama publicado por WikiLeaks, de 2006, ilustra os esforços de Washington para identificar “oportunidades” para expor “vulnerabilidades” no regime sírio e provocar divisão sectária/étnica, discórdia dentro do aparelho militar/de segurança e dificuldades econômicas. Como os EUA fariam isso? O telegrama lista uma série de vulnerabilidades sírias a serem exploradas e recomenda:

“Essas propostas têm de ser dissecadas e convertidas em ações, e temos de estar prontos para nos movimentar rapidamente e extrair vantagens dessas oportunidades. Muitas de nossas sugestões destacam o uso de Diplomacia Pública e de meios mais indiretos para enviar mensagens que influenciem o círculo interno [do poder sírio]”. [2]

Propaganda dirigida à opinião pública nos EUA

“Diplomacia Pública” significa, de fato, “propaganda” – a qual, nos termos da lei Smith-Mundt, de 1948, especifica os termos nos quais o governo dos EUA pode disseminar informação para públicos estrangeiros. Em 1972, a lei proibiu que cidadãos norte-americanos tivessem acesso a informação orientada para públicos estrangeiros; em outras palavras, é ilegal, nos EUA, que o governo norte-americano faça propaganda dirigida a cidadãos norte-americanos.

Mas Washington encontrou meios para burlar a lei. Afinal, os cidadãos norte-americanos têm de “vir junto” nas muitas aventuras militares além-mar empreendidas por sucessivos governos. Como, então, o governo dos EUA consegue, sem infringir a lei, inundar a sociedade com propaganda, e obter que os norte-americanos abracem tantas guerras (Iraque, Afeganistão, talvez o Irã), aceitem a venda de armas a aliados questionáveis (Arábia Saudita e Israel) e aceitem as muitas violações de direitos humanos (Guantánamo, ataques com aviões-robôs, os drones, a civis)?

A falsa história das armas de destruição em massa que haveria no Iraque, prontas a serem usadas contra os EUA e seus aliados, foi a parte crucial da narrativa que resultou na intervenção militar no Iraque. Impossível esquecer o depoimento do então secretário de Estado Colin Powell, em que disse que havia provas de que Saddam possuía armas de destruição em massa; e o discurso “State of the Union” do presidente Bush, quando mentiu, ao dizer que o Iraque obtinha urânio enriquecido do Niger. A imprensa acabou por revelar as duas mentiras [embora não a tempo de impedir a guerra do Iraque]: a lei proíbe divulgar propaganda mentirosa ao povo norte-americano.

Quando narrativas oportunistas convertem-se em mentiras ativas, que geram políticas viciosas?

Há meios pelos quais é possível escapar à lei Smith-Mundt. O meio mais rápido, para distribuir informação imprecisa, viciosa e às vezes absolutamente falsa, são os “vazamentos”. Basta pesquisar em qualquer jornal ou revista em Washington, New York ou Los Angeles, e facilmente se encontram, nas sessões de política internacional, inúmeros “vazamentos”, em que “autoridades” ou funcionários do governo, “vazam” frases diretamente aos jornalistas.

A internet também é excelente veículo para disseminar desinformação. O alcance planetário, os milhões de blogs com diferentes graus de credibilidade – todos sempre podem servir ao jogo da propaganda, ou “Diplomacia Pública”.

Em abril de 2010, o coronel Lawrence Wilkerson, ex-chefe de gabinete de Powell – mais um coronel e ex-funcionário, dos vários que falaram com franqueza sobre política e os atalhos que há no processo, depois de deixar o posto – disse-me, pessoalmente:

“[O secretário de Defesa Donald] Rumsfeld e outros, por exemplo, simplesmente ignoraram a lei. Mandavam o que queriam que fosse publicado, por exemplo, para um jornal de Sydney, que publicava; em seguida, pela internet, mandavam de volta a “notícia publicada na Austrália”, para os EUA. Fizeram, sim, propaganda dirigida aos cidadãos norte-americanos.”
Wilkerson insiste:

“Temos um conflito de leis, que tem de ser corrigido – a lei diz que não se podem misturar as coisas: há “relações públicas”, dirigidas ao público norte-americano; e há “diplomacia pública”, dirigida a públicos não norte-americanos. Falta uma lei que proíba a propaganda, e ponto final. É importante informar a verdade. Entendo que não se possam publicar segredos de Estado. Mas por que não publicar a verdade?”

O problema das relações internacionais, particularmente no Oriente Médio é, em síntese, quem constrói as decisões – sempre ideólogos, com agendas fixas: contra o Irã e a favor de Israel; contra o “ditador” sírio, mas a favor dos ditadores sauditas, bahrainis, iemenitas, qataris; contra o Irã ter capacidade nuclear, mas a favor de Israel manter suas 200 bombas atômicas; abusar do direito de veto no Conselho de Segurança (os EUA vetaram mais de 80 propostas de resolução no CS!), e apresentar como se fosse crime, o exercício do mesmo direito de veto quando é exercido por outros membros do mesmo Conselho. E a lista é longa.

“Está rachado – é absolutamente disfuncional” – disse Wilkerson, sobre o processo de tomada de decisões no governo dos EUA: “Metem os ideólogos no processo, para encurralar, chantagear, orquestrar, manipular, enganar, confundir os funcionários civis dentro do governo, até que todos façam o que os ideólogos dizem que tem de ser feito”.

De volta à Síria.

Uma jornalista de uma grande rede ocidental de notícias escreveu-me, por e-mail, voltando de viagem à Síria:

“Voltei de Homs, mês passado, sem estar convencida de que havia algum levante popular contra o regime de Assad. E muito longe de estar convencida de que haveria por lá algum “mocinho” contra “bandidos”.

De fato, sabe-se praticamente nada sobre o que se passa no país. E não necessariamente porque a imprensa seja controlada: o relatório da missão da Liga Árabe lista 147 órgãos da imprensa ocidental e árabe[3]que estão presentes na Síria.

A razão pela qual continuamos sem nada saber sobre o que está realmente acontecendo em Homs é que está em curso uma feroz batalha pela narrativa dominante. E a narrativa hoje dominante é a que Washington criou. A mesma Washington que, como se lê na notícia direta, colhida de fonte primária, que WikiLeaks publicou, desde 2006 trabalha para colher todas as “oportunidades” de explorar as “vulnerabilidades” e minar o governo de Bashar Assad.

Não oferecer informação correta é uma coisa. Mas outra coisa, bem diferente, é trabalhar para atingir objetivo político sobre o qual os cidadãos dos EUA não foram consultados nem discutiram, porque foram mantidos à margem, sem conhecer os fatos.

Notas dos tradutores

[1] Ver, por exemplo, telegrama 06DAMASCUS760, 9/2/2012, “EUA trabalha com a oposição na Síria, desde 2006” (em português)

[2] Telegrama 04 DAMASCUS 005399, (em inglês).

[3]A relação completa dos 147 órgãos da imprensa ocidental e árabe que estão trabalhando na Síria (entre as quais a BBC, a Associated Press, a rede CBS, a TV estatal italiana, o jornalGuardian, a rede CNN, a rede EFE espanhola, o Financial Times, a rede NBC e mais de uma centena de outros) pode ser lida diretamente do Relatório da Missão da Liga Árabe que visitou a Síria, (em inglês).

Sobre o Relatório da missão da Liga Árabe na Síria, ver 3/2/2012, Pepe Escobar – “Vazou! A agenda da Liga Árabe para a Síria” (em português)

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