Hora de rever as privatizações por Mauro Santayana


Se outros efeitos não causar à vida nacional o livro do jornalista Amaury Ribeiro Jr., suas acusações reclamam o reexame profundo do processo de privatizações e suas razões.

Ao decidir por aquele caminho, o governo Collorestava sendo coerente com sua essencial  natureza, que era a de restabelecer o poder econômico e político das oligarquias nordestinas e, com elas, dominar o país. A estratégia era a de buscar aliança internacional,aceitando os novos postulados de um projetado governo mundial, estabelecido pela Comissão Trilateral e pelo Clube de Bielderbeg. Foi assim que Collor formou a sua equipe econômica, e escolheu o Sr. Eduardo Modiano para presidir ao BNDES – e, ali, cuidar das privatizações.

Santayana quer rever as privatizações
Publicado em 18/12/2011
Saiu na Carta Maior, artigo de Mauro Santayana

Primeiro, houve a necessidade de se estabelecer o Plano Nacional de
Desestatização. Tendo em vista a reação da sociedade e as denúncias de
corrupção contra o grupo do presidente, não foi possível fazê-lo da noite
para o dia, e o tempo passou. O impeachment de Collor e a ascensão de Itamar
representaram certo freio no processo, não obstante a pressão dos
interessados.

Com a chegada de Fernando Henrique ao Ministério da Fazenda, as pressões se
acentuaram, mas Itamar foi cozinhando as coisas em banho-maria. Fernando
Henrique se entregou à causa do neoliberalismo e da globalização com
entusiasmo. Ele repudiou a sua fé antiga no Estado, e saudou o domínio dos
centros financeiros mundiais – com suas conseqüências, como as da exclusão
do mundo econômico dos chamados “incapazes” – como um Novo Renascimento.

Ora, o Brasil era dos poucos países do mundo que podiam dizer não ao
Consenso de Washington. Com todas as suas dificuldades, entre elas a de
rolar a dívida externa, poderíamos, se fosse o caso, fechar as fronteiras e
partir para uma economia autônoma, com a ampliação do mercado interno. Se
assim agíssemos, é seguro que serviríamos de exemplo de resistência para
numerosos países do Terceiro Mundo, entre eles os nossos vizinhos do
continente.

Alguns dos mais importantes pensadores contemporâneos- entre eles Federico
Mayor Zaragoza, em artigo publicado em El País há dias, e Joseph Stiglitz,
Prêmio Nobel de Economia – constataram que o desmantelamento do Estado, a
partir dos governos de Margareth Thatcher, na Grã Bretanha, e de Ronald
Reagan, nos Estados Unidos, foi a maior estupidez política e econômica do
fim do século 20. Além de concentrar o poder financeiro em duas ou três
grandes instituições, entre elas, o Goldman Sachs, que é hoje o senhor da
Europa, provocou o desemprego em massa; a erosão do sistema educacional, com
o surgimento de escolas privadas que só servem para vender diplomas; a
contaminação dos sistemas judiciários mundiais, a partir da Suprema Corte
dos Estados Unidos – que, entre outras decisões, convalidou a fraude
eleitoral da Flórida, dando a vitória a Bush, nas eleições de 2000 -; a
acelerada degradação do meio-ambiente e, agora, desmonta a Comunidade
Européia. No Brasil, como podemos nos lembrar, não só os pobres sofreram com
a miséria e o desemprego: a classe média se empobreceu a ponto de
engenheiros serem compelidos a vender sanduíches e limonadas nas praias.

É o momento para que a sociedade brasileira se articule e exija do governo a
reversão do processo de privatizações. As corporações multinacionais já
dominam grande parte da economia brasileira e é necessário que retomemos as
atividades estratégicas, a fim de preservar a soberania nacional. É também
urgente sustar a incontrolada remessa de lucros, obrigando as multinacionais
a investi-los aqui e taxar a parte enviada às matrizes; aprovar legislação
que obrigue as empresas a limpa e transparente escrituração contábil;
regulamentar estritamente a atividade bancária e proibir as operações com
paraísos fiscais. É imprescindível retomar o conceito de empresa nacional da
Constituição de 1988 – sem o que o BNDES continuará a financiar as
multinacionais com condições favorecidas.

A CPI que provavelmente será constituída, a pedido dos deputados Protógenes
Queiroz e Brizola Neto, naturalmente não se perderá nos detalhes menores – e
irá a fundo na análise das privatizações, a partir de 1990, para que se
esclareça a constrangedora vassalagem de alguns brasileiros, diante das
ordens emanadas de Washington. Mas para tanto é imprescindível a
participação dos intelectuais, dos sindicatos de trabalhadores e de todas as
entidades estudantis, da UNE, aos diretórios colegiais. Sem a mobilização da
sociedade, por mais se esforcem os defensores do interesse nacional,
continuaremos submetidos aos contratos do passado. A presidente da República
poderia fazer seu o lema de Tancredo: um governante só consegue fazer o que
fizer junto com o seu povo.
………
Mauro Santayana é colunista político do Jornal do Brasil, diário de que foi
correspondente na Europa (1968 a 1973). Foi redator-secretário da Ultima
Hora (1959), e trabalhou nos principais jornais brasileiros, entre eles, a
Folha de S. Paulo (1976-82), de que foi colunista político e correspondente
na Península Ibérica e na África do Norte.

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3 respostas para Hora de rever as privatizações por Mauro Santayana

  1. Marcelo disse:

    O texto tem boas idéias, nenhuma delas jamais deu certo em lugar nenhum, mas não deixam de ser boas…

  2. Pingback: Hora de rever as privatizações por Mauro Santayana | Midiacrucis's … | Info Brasil

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