Ao encalço da verdadeira corrupção


Combate à corrupção tem sido a palavra de ordem da mídia de mercado de um modo geral. Campanha nesse sentido tem mobilizado parcelas da opinião pública pelas redes sociais, mas resta saber se o que está sendo feito realmente ataca a questão como deveria ou apenas repete o que acontecia em outras décadas quando no Brasil antes de 1964 existia um partido, a UDN (União Democrática Nacional), que de democrática se resumia a sigla, pois na prática vivia conspirando nos quartéis contra a ordem estabelecida. A pregação, que tinha como uma das palavras de ordem o “combate a corrupção” acabou desembocando na quebra da ordem constitucional com a derrubada do então Presidente João Goulart.

por *Mario Jakobskind no Site SCDRJ

     Isso tudo faz parte da história contemporânea nacional, mas vale ser lembrada neste momento em função da intensificação da campanha nas redes sociais com total apoio da mídia de mercado, a mídia que tem esta denominação porque corre a todo o momento atrás do lucro fácil.

     O que se pergunta é se a forma como é feita a pregação na prática não está escamoteando o principal, ou seja, a verdadeira corrupção que vem sendo praticada, sobretudo, na área financeira onde os bancos têm lucros exorbitantes da ordem de 26 bilhões de reais e em pouco tempo? Um setor da economia que tudo pode, inclusive corromper, e nem está sujeito à fiscalização.

No varejo

     Certamente que qualquer tipo de corrupção deve ser combatido, mas o que não se pode aceitar é que se fique no varejo, na prática escondendo o principal. Vale comparar o volume que representa o desvio de verbas públicas praticado por algum cidadão comissionado do serviço público e quanto vale a corrupção no mundo financeiro? Não é que um não importa, importa sim, mas o incorreto é apenas se dedicar a um setor e deixar o outro navegando a seu bel prazer, como acontece ultimamente.

     Aparecer em atos públicos com vassouras com as cores verde e amarela falando em faxina sem atacar a verdadeira corrupção no setor financeiro é iludir os incautos.

     Alguém deve estar perguntando, mas que crimes são estes que tantos lucros auferem na mão de muito poucos?

Cidadãos acima de quaisquer suspeitas

     Como se explica, por exemplo, que um Pedro Malan, ex-ministro da Fazenda nos dois mandatos do presidente Fernando Henrique Cardoso, sabendo de segredos de Estado que afetam a vida dos brasileiros, se torne banqueiro (do Unibanco) da noite para o dia depois de deixar o cargo e ainda por cima preparando o terreno para a fusão de dois gigantes do setor, o Unibanco e Itaú?

     Ah, sim: por onde andam economistas, como o que presidiu o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) André Lara Resende, proprietário de um castelo no Reino Unido e outros que preparam o terreno para a execução de políticas neoliberais nefastas ao povo brasileiro?

     Por onde andam Armínio Fraga e Gustavo Franco, ex-presidentes do Banco Central? Seguem vinculados ao capital financeiro depois de também guardarem consigo segredos econômicos. E tudo isso é considerado perfeitamente normal, nada a ver com corrupção.

     Que fenômeno e em que base ocorreu a absorção em 20 anos de 80% da indústria nacional pela estrangeira? A quem favoreceu a burguesia brasileira ter se tornado mera gestora, obediente às ordens e de forma subserviente ao capital internacional? E em que isso afetou a vida dos brasileiros? Por que o silêncio da mídia de mercado sobre o fato?

     E as privatizações de estatais ocorridas principalmente nos dois mandatos do então presidente Fernando Henrique Cardoso, mas que continuaram com Lula, embora em menor escala se comparadas aquele período?

     A propósito, porque não aconteceu nada com o ex-genro de Cardoso, David Zilberstein, que numa reunião com dirigentes do setor petrolífero disse em alto e bom som: “o petróleo é vosso”. Trocando em miúdos: Zilberstain foi às últimas consequências em matéria de subserviência e entrega de mão beijada de uma riqueza da nação.

     E o processo de quebra do monopólio estatal do petróleo no Brasil iniciado na era FHC, por que ficou por isso mesmo e não foi investigado a sua lisura?

     Todos estes cidadãos acima de quaisquer suspeitas mencionados seguem ocupando amplo espaço na mídia, mas em nenhum momento são cobrados, muito pelo contrário, quando aparecem recebem apenas elogios. Tornaram-se até fontes de muitos jornalistas econômicos.

     Os incentivadores das vassouras verde-amarelas distribuídas em recente manifestação na Cinelândia – quando previram a participação de 30 mil manifestantes e apareceram cerca de 1.500 – ignoram tudo isso. Por que será que não vão a fundo e preferem ficar apenas no varejo?

     Ah, sim, e os empresários que financiam campanhas de políticos e depois conseguem grandes vantagens para seus negócios na base de milhões e milhões em lucros exorbitantes para suas empresas através do Estado brasileiro? Ou será que alguém acredita que financiamento privado de campanha fica na base do 0800?

     Mas a Federação das indústrias do Rio de janeiro (FIERJ) não está nem aí. Prefere usar a vassoura verde amarela, neste caso para varrer para debaixo do tapete o lixo, mais uma vez iludindo os incautos e ajudando a fugir do principal.

“Bandidos de toga”

     Na área do Judiciário, a Ministra Eliana Calmon, do Supremo Tribunal de Justiça (STJ) segue sendo ultra questionada por magistrados dos mais amplos setores pelo fato de ter afirmado que a ação da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) para impedir a investigação de juízes abre “caminho para a impunidade da magistratura” e que a Justiça esconde “bandidos de toga”.

     Mas afinal de contas, qual o problema de afirmar que nesta ou naquela profissão existem os que não agem com correção? Há bons e maus exemplos em cada categoria profissional. Parece óbvia essa lembrança, mas isso não agrada a muitos corporativistas, que defendem todos de sua atividade profissional, independente de como procedem.

* Mário Augusto Jakobskind, jornalista e escritor
jakobskind@terra.com.br

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2 respostas para Ao encalço da verdadeira corrupção

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