Lula, sem viés elitista por Martin Granovsky


Os jornalistas não são a história. Somente as contam. Aqui vai uma história que começa, viva a  contradição, com um título onde um jornalista é parte da história. Diz: “Martin Granovsky: Foi preciso que um argentino defendesse Lula em Paris”. Em espanhol: “Martín Granovsky: Fue necesario que un argentino defendiera a Lula en París”.

Na última quarta, Página12 publicou um artigo com o título “Los esclavistas contra Lula”. Relatava a perplexidade de dois argentinos, o citado defensor de Lula e a historiadora Diana Quattrocchi Woisson, quando um grupo de jornalistas brasileiros questionou com argumentos classistas o diretor do Sciences Po, o conhecido Instituto de Estudos políticos de Paris, Richard Descoings, Senhor Descoings tinha resolvido dar um Doutor Honoris Causa ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e foi castigado como os romanos fariam com os galos de Asterix. Como premiar um senhor que não tem título universitário? Um torneiro mecânico indigno de seu antecessor Fernando Henrique Cardoso? Um campeão em corrupção no Brasil? Acaso era uma concessão a um presidente desfavorecido por sua origem social? Não sabia o professor Descoings que Lula havia cerceado os direitos humanos e a liberdade de expressão?

No mesmo dia a Carta Maior, do Brasil, traduziu e publicou o artigo. Outros blogs fizeram o mesmo. No Viomundo de Luiz Carlos Azenha o título que segue “Foi preciso que um argentino”. Cinco e meia , hora de Paris e em Buenos Aires e Recife 12h30, Lula ingressou com uma toga negra no auditório do Sciences Po. A essa hora a nota circulava no Brasil e na França e já começaram a chegar os primeiros emails.

“Meu nome é Gerson Alves de Souza”, dizia um. “Sou brasileiro, conterrâneo do ex-presidente Lula (nordeste do Brasil) e exerço a profissão militar do exército brasileiro. Não há dúvida de que a “grande” imprensa brasileira realmente é escravocrata, elitista, medíocre e golpista”. Escrevia Sr. Alves que se trata da “elite branca” e que os grandes meios (de comunicação) são “um monopólio de meia dúzia de famílias tradicionais, oriundas do regime escravista brasileiro do século XIX”.    E terminava: “Ainda que eu pudesse esperar, foi repugnante tomar conhecimento das perguntas feitas pelos jornalistas brasileiros no Sciences Po.

“Parabéns à classe de jornalistas oferecida aos brasileiros servis e parabéns a você e para o povo argentino”.

Texto de Luiz Carlos da Silva: “Hoje vivemos um momento mágico, com crescimento, respeito e principalmente valorizando nossa gente e nossa economia. Muito obrigada pelo seu texto! É um grande torcedor dos esportes argentino tênis, basquete, hockey e claro, futebol. Tudo graças ao grande Tevez, que jogou na equipe de meu coração, o Corinthians”.

Humberto Mafra enviou um abraço e disse que “esses detalhes de bastidores são muito apreciados, porque refletem a essência de uma situação”.

Vera Lucia de Oliveira pediu: “Saiba que nós os brasileiros não odiamos os argentinos, como a mídia bandida daqui quer que pensem, e eu sei que também o inverso é verdadeiro, nque os argentinos não odeiam os brasileiros”.

O senhor Rilke Novato Publio, vice-presidente da Federação Nacional de Farmacêuticos, disse que a elite brasileira “jamais admitirá que este país deve muitas de suas conquistas recentes a um governo comprometido com seu povo, cujo presidente era um torneiro mecânico, ou seja de origem muito pobre, que com inteligência política de um grande estadista levou o Brasil a os níveis políticos e econômicos nunca antes alcançados”.

Luciana de Assis Pacheco, da Universidade de Campinas, disse que se sentiu emocionada “sobretudo porque vocês são meus vizinhos sul americanos”. Escreveu que “nos sentimos bem quando conhecemos bons vizinhos” e que se lembrou do “sentimento de fraternidade” que experimentou quando leu ainda jovem “As Veias Abertas da América Latina” de Eduardo Galeano.

Uma jornalista brasileira, cujo nome mantemos em sigilo até que ela disponibilize contou isto: “Sou minoria entre meus colegas, já cansada de discutir com uma elite mal informam e cheia de preconceitos. Aos da Casa Grande não lhes agrada que um operário metalúrgico represente a imagem do Brasil no cenário internacional. Haveria muitas críticas a fazer ao governo Lula. Mas deveriam basear-se nos feitos e não nos preconceitos”.  

A Casa Grande era a mansão dos escravocratas nas plantações

Os jornalistas são (somos?) pessoas vaidosas. Mas até o mais vaidosos sabem que se uma nota se converte em história não é por sua genialidade, senão por um acorde.  O prejuízo descoberto com toda sua transparência por trás dos bastidores e apresentado sem volta?  A sintonia elementar com 84% de popularidade de Lula? A fraternidade sul americana? Uma identidade popular expressada em palavras? Essa expressão escrita não em São Paulo ou Buenos Aires mas fora da América do Sul , em Paris? As coisas que podem provocar Lula. Por sorte, na quarta, no Sciences Po.

Ainda bem que na quarta, no Sciences Po, quando caminhava com sua toga negra rumo ao palco, um grupo de estudantes o saldou levantando a bandeira verde e amarela como se entrasse na seleção.

Em seu agradecimento pelo Honoris Causa, o primeiro entregue pelo Science pó a um latino americano, Lula disse que não tinha um título universitário, mas que tinha siso o presidente que mais criou universidades. Que os pobres passaram a ser tratados como cidadãos. E que acabou “o mito elitista de que a qualidade é incompatível com a ampliação de possibilidades”

Que o dourado é não para ele, mas para o povo brasileiro. Que o salário mínimo aumentou em 62%. Que no mundo “a esperança progressista surge dos ventos da América do Sul”. Que a América do Sul não é lugar dos problemas insolúveis mas também o das esperanças.

Contou Lula que os todos os 23 de dezembro, antes do Natal, se reunia com catadores de papel de São Paulo. Nunca lhe pediam nada e então um dia tomou a iniciativa de pedir crédito do BNDES para eles. Disse também: “O pobre pede pouco. E é agradecido. O rico pede um milhão. Quando damos a eles, saem e reclamam. “Queria dois  e me deram somente um”

“O que está errado não é aquele que pede, mas os que não sabem ouvir aqueles que pedem. A juventude do Egito, da Líbia e da Tunísia não falam de poder, senão de esperança e de dignidade.”

Quando chegou a Paris, Lula vinha de Washington, sede do FMI. Ele riu. “Quando o Brasil estava em crise eram todos sabichões. Em 2008 quando caiu o Lehman Brothers, os sabichões não sabiam nada. E agora tampouco. O que acontece é que a Europa necessita de decisões políticas, não econômicas. E rápidas. O que demanda a crise grega é hoje quatro vezes mais do que demandava quando começou. Por que há de se respeitar a herança de (Ronald) Regan e (Margaret) Tatcher de seguir desmontando o Estado enquanto privatizam tudo? Chamei Obama e contei a ele que no Brasil três bancos foram fundamentais: Banco do Brasil, BNDES e Caixa Econômica Federal. Perguntei a ele se lá não tinham bancos. Me respondeu que eram os que haviam provocado a crise”.

martin.granovsky@gmail.com

Fonte: 12 Página/12

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